Você Não É As Suas Ideias

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Você não é as suas ideias. Essa talvez seja uma das lições mais fáceis, e ao mesmo tempo mais difícil, de ser aprendida e apreendida. Mas por qual motivo? Porque somos tão ligados às nossas ideias?

Um Jantar e Quatro Pessoas

Você sai para jantar, e não pergunte por qual motivo, quatro pessoas sentam à sua mesa e decidem conversar contigo.

O assunto é a crise de coronavírus. Você entende que os governos fizeram tudo errado, e que o vírus não é nada demais, e a reação geral das pessoas é completamente descabida e exagerada.

Então, o sujeito 1 diz: “Não, você está completamente equivocado. É um novo vírus, as pessoas temem o desconhecido, e a sociedade deve sim se preocupar com riscos que não conhecem bem com possíveis grandes impactos sociais e econômicos”.

O sujeito 2 então arremata: “É verdade, sua opinião é uma bobagem, aliás, você deve ser bolsonarista” e de uma forma rude pede ao garçom que venha tomar o pedido.

O sujeito 3 indignado fala rispidamente para os outros dois “Vocês são massa de manobra, esse comunavírus foi criado em laboratório para destruir a família cristã”.

Por fim, o sujeito 4, não querendo se intrometer mas falando mesmo assim, concorda com a sua opinião dizendo “é verdade, houve uma reação exagerada dos governos, que por via de consequência contaminou a reação das pessoas. Isso não só atrapalhou o combate ao problema de saúde pública, como com certeza dificultará ainda mais a recuperação econômica”.

Há Duas ou Quatro pessoas?

Observem o gráfico abaixo:

Ideias

Ele mostra a situação hipotética do jantar e como se pode encarar a situação. No primeiro gráfico há uma separação entre decência e concordância. No segundo, concordância e decência são a mesma coisa.

Os sujeitos 1 e 2 discordam de você e os sujeitos 3 e 4 concordam a grosso modo com a sua opinião.

Num mundo onde as pessoas são as suas ideias,  ou que pensam que as ideias definem as pessoas, é muito fácil fazer a transição do gráfico da esquerda para o da direita.

Assim uma pessoa agradável que discorda de mim pode se transformar num “babaca”, e um “babaca” que concorda comigo pode se transformar numa pessoa agradável, quando o simples fato de concordar ou discordar deveria ser indiferente ao fato de uma pessoa ser ou não “babaca”.

Logo, as quatro pessoas no jantar podem talvez ser diminuídas para duas. E por qual motivo isso pode ocorrer?

Cristão, Branco, Conservador, Heterossexual, Pai de Família e Trabalhador: Quando as Ideias Convergem para a Identidade

Uma vez no meu antigo blog, outro blogueiro se descreveu assim para mim. Eu, sinceramente, nunca tive vontade de me definir assim.

A cor da minha pele, minha (des)crença, o que me satisfaz sexualmente, o meu estado empregatício, nunca foram características que necessariamente definissem quem o Thiago realmente fosse.

Mas, para muitas pessoas, essas definições são centrais para a própria experiência psicológica, para a própria definição de quem elas são. Isso pode vir a ser um problema.

A partir do momento que essas definições se transformam em algo central para a minha própria personalidade, eventuais críticas, mesmo que indiretas, a determinados conceitos talvez sejam interpretados como não críticas a uma determinada ideia, mas a própria pessoa em si.

As ideias então deixam de ser apenas ideias, mas passam a ser extensões da própria personalidade do indivíduo.

Assim, o sujeito 2 que pode ter uma opinião contrária fundamentada, ser uma pessoa agradável, talvez se torne um “bacaba” apenas por ser crítico de uma ideia sua.

Ideias Inscritas em Pedra

A partir do momento que as ideias se tornam quem nós somos, fica evidente que elas se tornam mais frágeis, pois dificilmente elas poderão ser contestadas, e a única forma de tornar uma ideia forte é submetê-la a pesadas e consistentes críticas.

Além do mais, perde-se a oportunidade de criação de conexões humanas mais profundas, e enfraquecendo o desenvolvimento de empatia, para outras pessoas com crenças, opiniões e ideologias diversas.

Com certeza ficamos mais propensos a ir a guerras, cometer ou apoiar atrocidades, idolatrar tiranos e desconfiar de nossos companheiros humanos.

Ideias que são mutáveis e estão em constante evolução, como a história humana demonstra, se transformam em dogmas inscritos em pedra, transformando seres humanos com potencial racional superior em fanáticos.

Sujeito n°2

Uma das coisas que me dá bastante satisfação é se encontrar com amigos, ou com qualquer pessoa, numa mesa de jantar e ter uma discussão saudável, divertida, e algumas vezes profunda, sobre as mais variadas facetas da vida.

Pessoas desagradáveis, ou mal-educadas, continuam a ser desagradáveis e sem educação independente se concordam ou não comigo.

Pessoas bacanas, sensíveis, verdadeiras, honestas, que concordam comigo são bem agradáveis, mas não são tão estimulantes do ponto de vista intelectual.

Porém, quando encontro sujeitos n°2, que sabem ser agradáveis, exímios pensadores, e discordam de alguma proposição, é quando eu realmente tenho satisfação de beber um bom vinho, comer um belo pedaço de pizza, e interagir.

E, vocês, prezados leitores, o que preferem?

Um grande abraço!

 

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