O que estamos fazendo com nossas crianças?

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E aí pessoal, quanto tempo. Muitos meses que eu não escrevia nada. Esses últimos meses estão sendo bem desafiadores e bacanas nas mais variadas esferas da minha vida. Espero voltar a escrever com mais constância.

Nossa Maior Responsabilidade

Você leitor talvez não seja Pai ou Mãe. Talvez a maior parte dos leitores não sejam papais ou mamães, e por esse fato, talvez seja um pouco mais difícil de entender, ou até mesmo concordar, com minhas próximas frases. Não tem problema!

Eu acredito que a maior responsabilidade de uma geração de seres humanos é deixar um mundo melhor para a próxima geração. É exatamente por esse motivo que a questão ambiental e do uso não racional dos recursos do nosso planeta pensando apenas nos desejos, prazeres e necessidades de nossa geração um dos atos mais antiéticos que nós coletivamente praticamos.

Mensalão? Petrolão? Bolsonaro e suas maluquices? Tudo, em minha visão, empalidece em termos morais quando pensamos em quão abjeta é a postura de colocar os interesses da geração presente a frente das inúmeras gerações vindouras.

Não gosto de pensar em termos assim tão amplos, tão “coletivos”. Perfeito. A maior obrigação de um Pai ou Mãe, em minha opinião, é com o bem-estar físico, psíquico, emocional e espiritual dos seus filhos.

Não é fácil. Criar nossa filha do jeito que achamos correto, para tentar produzir uma jovem que poderá ser capaz de explorar todos os potenciais humanos, sem sombras ou ansiedade, e com empatia para com os outros, é uma tarefa árdua minha e da minha companheira.

É preciso atenção de qualidade, é preciso paciência, é necessário estudar vários tópicos, etc. É extremamente recompensador, pois não tem nada mais bonito e tocante do que ver a sua filha te abraçando e descobrindo o mundo. Mas não é fácil, é preciso fazer escolhas, e é preciso abrir mão de vontade e desejos pessoais.

Você até pode achar, ou acreditar, que não possui responsabilidade em relação a outros, mas apenas a si próprio. É uma forma de ver a vida e há muitas pessoas inteligentes que pensam assim. Não é como eu vejo a realidade.

Não pensarmos sobre as gerações vindouras, ou o que é pior, deixar um mundo muito pior para elas, é como agredir alguém que não pode se defender, é como dar um tapa num recém-nascido de 20 dias. Se a cena de agredir um bebê de poucas semanas é abjeta, é como deveríamos nos sentir talvez eticamente sobre deixar um mundo pior para as próximas gerações.

O Covid e as Crianças

A crise de COVID se alastra pelo tempo. Quem me conhece, ou gosta do que escrevo, sabe que no começo, por pura curiosidade, fiz uma série de vários artigos sobre vários aspectos técnicos de saúde. Entrevistei inclusive pesquisadores famosos no meu podcast. Isso faz mais de 14 meses.

De lá para cá muita coisa mudou, inclusive em termos de ciência, e eu fico abismado como muitas pessoas, inclusive cientistas, continuam repetindo coisas como se a gente tivesse em março de 2020. Isso não faz o menor sentido.

Uma das ferramentas mais impressionantes de análise da realidade é pensar sobre acontecimentos pro meio de uma lógica de estatística bayesiana. Não, eu não entendo profundamente estatística, mas sei compreender o conceito central dessa forma de analisar o mundo:

AS PROBABILIDADES DOS EVENTOS FUTUROS E INCERTOS DEVEM SER AJUSTADAS CONFORME NOVAS INFORMAÇÕES OCORRAM.

Um exemplo prático sobre o Sars-CoV-2? Em março de 2020 eu passava álcool,  minha mulher ir ao supermercado de luva, etc, etc. Isso fazia sentido na época, pois não se sabia qual era a forma de transmissão, nem a probabilidade de cada forma de transmissão. O alcool, luvas, etc, serviam para minimizar o risco de contágio via superfície de objetos.

Acelere o relógio para setembro de 2021. Faz mais de 14 meses que eu não uso álcool (eu não gosto de passar nenhum produto químico de forma desnecessária no meu corpo), usar aquelas luvas de plástico para se servir num restaurante a quilo não faz o menor sentido (na verdade só cria um passivo ambiental), assim como outras posturas. Por quê? Ora, porque está mais do que claro que a transmissão via superfície é extremamente rara, se é que ela ocorre.

Porém, nós socialmente não utilizamos o modelo mental bayesiano de readequar as probabilidades, e por via de consequência nossas atitudes, no tocante ao uso de álcool, luvas, etc. Isso é irracional.

E isso vem acontecendo em relação às nossas crianças, a nossa maior responsabilidade enquanto pais, sociedade e Nação.

Alguns fatos sobre COVID e crianças:

  1. A chance de mortalidade é minúscula. Um estudo feito na Inglaterra mostrou que a chance de crianças e adolescentes de se hospitalizarem por COVID foi uma em 50 mil. De morrerem UMA EM 500 MIL.  Isso porque pegaram adolescentes, se fossem crianças pequenas, isso seria ainda menor. Dos 25 jovens que morreram na Inglaterra de morte atribuída ao SARS-CoV-2. Da esmagadora maioria do número já muito pequeno que morreu de jovens possuía graves comorbidades, ou seja, já eram crianças/jovens muito frágeis em primeiro lugar.
  2. Se alguém for no site do CDC  e  observar as estatísticas desse órgão de saúde americana observará que morreram 172 crianças de 0 a 4 anos nesse país de abril de 2020 a setembro de 2021. Há cerca de 20 milhões de crianças nessa faixa etária nos EUA. Isso dá uma morte a cada 120 mil crianças. Não há estatísticas sobre a existência ou não de comorbidades nessas crianças. E, se retirasse as mortes ocorridas em bebês de 0-1 anos (segundo uma estatística que não consigo mais encontrar e o sentido da exclusão seria que essas crianças são muito frágeis) as mortes ficariam em linha com o estudo feito na Inglaterra.
  3. Se o leitor for em outra página do CDC observará as estatísticas sobre a temporada de gripe nos EUA na temporada de 2018-2019 (a temporada de gripe vai de outubro a maio do próximo ano, ou seja, oito meses).  Foi uma temporada de baixa-média mortalidade, não foi uma temporada forte. Sabe quantas crianças de 0 a 4 anos morrerem de gripe?  266. Numa temporada fraca-média de gripe em 8 meses morreram 266 crianças. De mortes atribuídas a COVID foram 172 em quase 18 meses.
  4. Crianças, especialmente as mais jovens, não são bons vetores, ou seja, transmissores da doença para adultos. Você pode procurar mais informações, deixo apenas um link de uma reportagem da National Geographic falando sobre um estudo na Islândia.

Em março de 2020 ficar muito preocupado com a saúde das crianças fazia todo e total sentido, inclusive tomando medidas que obviamente trariam malefícios a elas. Mas entre um risco desconhecido e talvez um leve risco de algumas medidas temporárias, era racional e justo, temer o desconhecido.

Porém, amigos, as informações mudaram. Crianças saudáveis tem uma chance absolutamente remota de hospitalização e quase inexistente de morte. A gripe, ao menos nos EUA, mata muito mais crianças de zero a quatro anos do que COVID, e eu ao menos nunca vi nenhum pânico generalizado por causa disso. E além de tudo crianças são pouco transmissíveis da doença, apesar de em relação a variante delta isso estar mudando um pouco.

O que estamos fazendo com nossas crianças?

A Catástrofe Atual e a que se Aproxima

Mas e daí? Você pode estar perguntando. O que estamos fazendo de tão errado em relação a crianças. É tão ruim assim usar máscara, deixar as crianças em casa e deixá-las cada vez mais imersas no mundo online de aprendizado.

Não é ruim, amigos, é uma verdadeira catástrofe que iremos nos arrepender profundamente.

Nos EUA, e não há razão para pensar que no Brasil tenha sido muito diferente, houve uma explosão de obesidade infantil. Eu não disse aumento, mas sim explosão.

Em um estudo longitudinal publicado pelo CDC nessa semana  esse órgão de saúde americano chegou a conclusão de que o número de crianças acima do peso ou obesas na faixa etária de 5-11 anos saiu de 36% para 46% no último ano. Os EUA já lutam com o problema de obesidade infantil, sendo talvez um dos maiores problemas de saúde pública daquele país. O aumento de 10% nessa faixa etária é assustador.

Para se ter ideia esse aumento equivale a todo aumento de obesidade observado nos últimos 20 anos! Em um ano a obesidade, que já era muito grande, subiu tanto como nos 20 anos anteriores.

O número de diagnósticos de crianças com diabetes tipo 2, que era uma doença quase que desconhecida em crianças há 20 anos, aumentou quase 70% no último ano. Isso já é uma consequência direta dessa explosão de obesidade. Diagnosticar uma criança de 10 anos diabetes tipo 2 é algo tão absurdo, que só uma sociedade doente sem qualquer responsabilidade pelas suas crianças deixa isso ocorrer.

Crianças obesas terão mais depressão, menos baixa-estima, ganharão menos, terão mais doenças crônicas e viverão menos. Sim, haverá queda na expectativa de vida, haverá diminuição drástica da expectativa de anos com qualidade de vida, a economia se enfraquecerá e os gastos com saúde serão ainda maiores, pois tratar de doenças crônicas custa muito dinheiro.

O que estamos fazendo com nossas crianças?

 Nós humanos evoluímos para ver o rosto e as emoções das outras pessoas. É como nós fomos constituídos geneticamente. Eu estou treinando Krav Maga há uns meses, e só vi o rosto do meu professor uma única vez, até brinquei com ele sobre esse fato. É estranho conviver com pessoas assim, mas talvez em relação a adultos, apesar de piorar a qualidade das interações, o benefício de usar uma máscara para conter a transmissão de um vírus que se transmite pelo ar faça sentido.

Mas, para crianças? Elas tem uma chance muito pequena de qualquer coisa de ruim acontecer, elas não são bons vetores da doença, por qual motivo elas devem usar máscaras? E os prejuízos de usar máscaras?

Os benefícios são teóricos e talvez muito diminutos. E os prejuízos? Esses são bens reais. Ao contrário de adultos que já se desenvolveram, crianças pequenas precisam ver o rosto de outras crianças e de adultos. Não é um capricho. Não é algo estético. É uma necessidade biológica vinda da nossa evolução.

Uma criança irá olhar o rosto de um adulto, e verá se ele ficou triste, feliz, brabo, com alguma atitude que ela tomou. Irá relacionar atitudes a emoções, irá aprender por conta própria a comunicação não verbal. Isso é essencial para o desenvolvimento de crianças saudáveis do ponto de vista físico e mental. De crianças que viraram jovens e saberão navegar nas complexidades e nuances da comunicação humana seja verbal, como não-verbal.

Ao se colocar uma máscara nas crianças, e nos cuidadores dessas crianças, isso tudo é muito prejudicado. Qual a consequência? O tempo irá dizer quão ruim será, eu temo que seja muito, mas muito ruim.

A OMS inclusive não recomenda o uso de máscaras em crianças abaixo de cinco anos.  Em crianças de 5 a 11 anos, a OMS recomenda o uso de máscaras apenas se houver seis requisitos cumulativos, e um deles é o seguinte:

  • Potential impact of wearing a mask on learning and psychosocial development, in consultation with teachers, parents/caregivers and/or medical providers (“potencial impacto do uso de máscara no aprendizado e desenvolvimento psicosocial, em consulta com professores, pais/cuidadores e médicos”)

Ou seja, o órgão mundial de saúde não recomenda máscara para crianças de cinco anos, e para crianças de 5-11 anos (que já se desenvolverem bem mais do que crianças na primeira infância), o uso de máscara deve levar em conta se isso não vai atrapalhar o desenvolvimento saudável da criança.

A OMS diz isso desde agosto de 2020, há mais de um ano portanto. Eles sabiam que o uso de máscara em crianças de 5-11 anos seria deletério, e em crianças abaixo de cinco anos não seria deletério, mas seria catastrófico para o desenvolvimento delas, é algo quase que criminoso.

Em bebês até 1-2 anos, particularmente, a situação é ainda potencialmente pior, como esse artigo científico The implications of face masks for babies and families during the COVID-19 pandemic: A discussion paper propõe.

O que estamos fazendo com nossas crianças?

Tira máscara, põe máscara. Vírus letal, vírus não letal. Vacinas são a solução para a saída da pandemia, vacinas não colocarão fim a pandemia. Se isso é até difícil de entender para adultos bem informados, imagina para jovens de 7-8 anos?

Há cada vez mais relatos de jovens que se sentem mais seguro e à vontade usando máscaras. Imagina uma criança tímida, a máscara causa um anonimato reconfortante. Mas nem tudo que é reconfortante é necessariamente útil e adequado para o desenvolvimento de um ser humano.

Será que não estamos criando uma geração de pessoas ansiosas, com desejo de esconder suas emoções, não se importando com as emoções dos outros? Como um adulto com essa mentalidade ou esse desenvolvimento vindo da infância irá navegar num mundo cada vez mais complexo de interações humanas?

O que estamos fazendo com nossas crianças?

Lute pelas nossas crianças, ou ao menos pelo seu filho. É nossa (sua) maior responsabilidade.

TEMPOS DIFÍCEIS PRODUZEM HOMENS FORTES. HOMENS FORTES PRODUZEM TEMPOS FÁCEIS. TEMPOS FÁCEIS PRODUZEM HOMENS FRACOS. HOMENS FRACOS PRODUZEM TEMPOS DIFÍCEIS.

Não sejamos a geração fraca que produzirá tempos muito difíceis para as novas e vindouras gerações.

Um abraço a todos!

 

27 respostas para “O que estamos fazendo com nossas crianças?”

  1. Muito boa a reflexão, é triste pensar no que virá. É angustiante viver em um mundo que não vai deixar as coisas melhores pras gerações futuras (já fazendo um juízo), quando em penso em filho essa questão sempre me vem a cabeça.

    PS: Já que você levantou a bola pra eu chutar aparecendo por aqui, estou esperando o 2o trecho do podcast com Dr. Sérgio Kaiser : P

    1. Fala Rodrigo, beleza meu amigo?
      Preciso lançar a segunda parte, mas você gostou da primeira? Não foi muito técnica e num assunto que o pessoal talvez não tenha interesse?
      Um abraço!

      1. Gostei sim da primeira, tanto que quero a segunda : P

        Sobre ser muito técnico e o pessoal não ter interesse, concordo com você. De todos os modos isso faz parte do alto nível do blog, ciência tratada na profundidade e atenta as nuances que merece dificilmente vai ser popular. Sou engenheiro de formação, apanho, preciso ouvir 10x mas uma hora sai. Mesmo sem entender sei que está lá pra quando eu tiver tempo. Já que está gravado acho que vale disponibilizar, é um super documento. Para os próximos você avalia o alcance hehe

        Um abraço!

  2. Olá Soul, quanto tempo! Fico feliz em saber que as coisas estão bem.

    Entendo perfeitamente o que você está dizendo e concordo que há exageros nas medidas de restrição social, inclusive com muitas evidências científicas corroborando seu texto (alguns já citados). O ponto principal do problema é a falha na comunicação! Seja por não haver um plano de comunicação homogêneo e adequado, ou seja por razões ideológicas a insistência de certos setores em propagar informações falsas e contraditórias. Comunicar-se com a massa (o povo) é uma ciência e na minha opinião é a nossa maior falha nos últimos 18 meses (não só no Brasil).

    Honestamente, eu tenho certa resistência a esta fala: “TEMPOS DIFÍCEIS PRODUZEM HOMENS FORTES. HOMENS FORTES PRODUZEM TEMPOS FÁCEIS. TEMPOS FÁCEIS PRODUZEM HOMENS FRACOS. HOMENS FRACOS PRODUZEM TEMPOS DIFÍCEIS.”. Não que eu discorde completamente, mas não acredito que haja uma forma tão simples de explicar algo tão complexo como a evolução do comportamento humano. Dê uma maneira geral, o ambiente influencia, e muito, o comportamento e a formação psicológica, de modo que a evolução acontece desta maneira, mas tenho conhecimento de tantos exemplos individuais que contrariam este parâgrafo que tenho minhas dúvidas.

    Voltando ao tema central, o uso de máscaras pelas crianças, realmente existe uma chance de você estar correto sobre o comportamento futuro, mas o fato é que as crianças e os jovens de hoje se adaptam melhor ao mundo da forma como é hoje do que nós, que nascemos num mundo analógico. Não temos como saber quais os efeitos das mascaras, mas também não temos como saber quais serão os efeitos, no longo prazo, de nascer e ser criado neste mundo conectado e com todas as respostas instantâneas e contato com amigos (além de videos, músicas, etc) a mão, ao toque dos dedos do dispositivo móvel. Inegavelmente, nossas crianças crescerão em um mundo muito diferente do que crescemos, mas isso não será responsabilidade somente da pandemia.

    Tenho duas filhas adolecentes, não está sendo nada fácil para elas (e para nós) passar por isso, Acredito até que, no caso da minha família, nós estamos superando bem os obstáculos. Minhas filhas continuam praticando esportes, tem boa saúde e aparentam ter um comportamento adequado para a idade. De qualquer maneira existe uma chance destes tempos difíceis estarem formando homens e mulheres fortes.

    1. Olá, meu amigo. Saudades de nossas interações.
      Poxa, seu comentário é muito bom, muito bom mesmo.
      Não discordamos em muita coisa, talvez em nada. Corroboro quase todas as suas palavras e ideias.
      Apenas faria uma reflexão. Não tenho nenhuma dúvida de que o mundo de nossas filhas será irreconhecível em certos aspectos.
      Gosto muito do Harari (escritor entre outros do livro “Sapiens”). Na verdade, o acho brilhante.
      E muito antes da pandemia o mesmo já falava sobre o futuro completamente diverso que esperaria nossas crianças. O que ensinar para elas então, o que não se tornará obsoleto em pouco tempo? Resiliência emocional.
      Portanto, sim, eles navegam e navegarão com uma maior facilidade em um mundo que será estranho a gente, sem sombra de dúvidas.
      Mas, mascaras pessoas, negar crianças o convívio com outras crianças e adultos, acredito que para a esmagadora maioria dos casos não criará humanos mais fortes para os tempos desafiadores que ainda virão.

      Um grande abraço para você e sua família!

      1. Valeu Soul,
        Curto muito o Harari também, o livro 21 lições para o século 21 é simplesmente imperdível e faz uma mistura de Sapiens com Homo Deus. Ótima reflexão sobre o tempo que vivemos e o futuro. Este livro influenciou e tem influenciado minha vida. Coincidentemente eu lí uns 2 meses antes de iniciar a pandemia e as reflexões de lá pra cá ficaram mais intensas, pois a pandemia acelerou alguns extremismos (incluíndo as fake news) que não estavam tão explicitas na sociedade.
        Concordo com você que as mascaras podem impactar o futuro de toda a sociedade. Cabe ao ser humano se adaptar (e nisso nós somos bons).
        Abraços!

  3. Sei que a seguinte opinião não é enormemente popular, mas penso que ao longo dos próximos anos nos arrependeremos amargamente do tratamento histérico dispensado a algo que, para todos os efeitos, é uma gripe, possivelmente mais forte — veja bem, gripe, não resfriado.

    Não apenas em termos das crianças, mas também de outras questões como:
    -liberdades civis;
    -educação: de crianças, claro, mas também de adolescentes e jovens;
    -saúde: quantas doenças foram negligenciadas por conta da pandemia? Gente tendo infarto ou AVC e com medo de ir ao hospital? E sem falar na saúde mental;
    -e claro, a economia, com seu efeito em cascata por todo o resto da sociedade: avanço tecnológico (incluindo inovações que poderiam ser benéficas ao meio ambiente), criminalidade, etc.

    Talvez algumas mortes tenham sido evitadas com as medidas que foram tomadas. Mas o custo disso será muito alto — não só um custo financeiro, mas também um custo em termos de vidas mesmo. Você colocou as questões da obesidade, do diabetes tipo II, etc. Mas também há questão de saúde mental e suicídios, inclusive de pessoas desesperadas por não ter como colocar comida na mesa da sua família. Sem falar nas já citadas doenças que foram negligenciadas durante a pandemia. Adiantou muito deixar de correr aqueles 1, 2, 3% de risco de morrer de Covid, para permitir que um câncer se alastrasse, assinando uma sentença de morte em poucos anos?

    1. Oie Swineone, tudo bem amigo?
      Tendo a concordar que não se analisou ou analisa os diversos possíveis impactos das decisões tomadas (ou que ainda estamos tomando).
      O IFR do SARS-CoV-2 parece bastante superior ao das temporadas recentes de influenza, especialmente na América Latina (ordens de magnitude). Já nos EUA-EUROPA realmente parece que a IFR é algo em torno de 5-6 vezes maior.

      Creio que você listou várias consequências com os quais eu concordo, é verdade. Sobre doenças crônicas “negligenciadas” talvez o pior impacto seja em câncer, e começaremos a ver reais efeitos logo mais. Cânceres que seriam diagnosticados, dezenas de milhares deles, de maneira precoce em 2020-1 não o foram, e isso terá um impacto algo na mortalidade, nos custos médicos e na saúde de dezenas, talvez centenas de milhares de pessoas apenas no Brasil.

      Eu acho que a saúde mental é um dos GRANDES tópicos sem sombra de dúvida. Eu moro numa pequena “bolha”, com uma trilha no meio do mato e dunas para uma praia especial. Minha filha, quando não está muito frio, foi à praia comigo quase todos os dias desde março de 2020. Eu não uso máscara 95% do meu tempo, minha filha nunca usou, amigos da rua nunca usaram na rua ou o mais absurdo em praias (tem gente que usa máscara em praias em pleno setembro de 2021 é inacreditável). Falo tudo isso, porque minha função enquanto pai foi preservar a saúde mental da minha filha. Eu fico estarrecido quando vejo algumas conversas pela internet de muitas pessoas, e apenas penso que a saúde mental dessas pessoas despencou nos últimos 18 meses de forma absurda.

      Outro ponto que me incomoda muito diz respeito às liberdades civis. Muito mesmo.

      Um grande abraço e obrigado ela mensagem!

      obs:1 – o risco de alguém no meu caso 40 anos saudável nunca foi 1 ou 2%, deveria estar mais próximo a algo como 1 em 5.000 ou 1 em 10.000.
      obs2: até onde sei os suicídios não aumentaram em muitos lugares do mundo, foi algo que pegou algumas pessoas de surpresa, pois parecia que haveria um impacto potencial grande. Mas dados são dados. Vai saber o que ocorrerá com os números em 2021

      1. Um dado para reflexão. Peguei no OurWorldInData.org.

        Até hoje, morreram 4,75 milhões de pessoas da peste no mundo. Parece muito, mas somos 8 milhões de pessoas no mundo. Dá menos de 0,6%.

        Claro, pode-se discutir à exaustão se esse valor é superestimado (para muitas pessoas, especialmente idosos, foi só um empurrãozinho final, pessoas com grandes chances de morrer ano passado, ou esse ano, ou ano que vem) ou subestimado (falta de testagem, especialmente em países pobres). Digamos que seja subestimado.

        E claro, cabe discutir o efeito das medidas que foram tomadas, e quanto seria esse valor se medidas mais brandas tivessem sido tomadas: vacinas, claro; uso de máscara em situações adequadas; incentivo ao home office, delivery, etc., mas sem obrigar ninguém a nada, especialmente a fechar empresas; etc. Duvido que teria dobrado essa taxa. Vamos ser generosos e colocar 1%.

        Em outras palavras, se achar razoáveis as minhas hipóteses, teríamos mantido o mundo rodando normalmente a um custo de 0,4% de mortes na população mundial ao longo de mais de 1,5 ano. Lembrando que, pelo que consultei aqui num site, a taxa de mortalidade anual é da ordem de 0,7%-0,8%.

        Será que os custos a longo prazo de tudo o que eu coloquei na postagem inicial justificam isso? Minha opinião é um NÃO absoluto, indiscutível.

        Espero que tenhamos aprendido uma lição para a próxima vez. Não sei se o mundo aguenta mais uma resposta dessas nos próximos anos, levaremos muito tempo para se recuperar da atual.

        1. Oie amigo,
          Na verdade a sua conta não está correta. A mortalidade representa algo em torno de 0.06% da população humana, é 10 vezes menor do que sua estimativa.
          Sub ou super, se pode ter uma noção com excesso de mortalidade. Quando vi os dados internacionais, o Brasil era o que o número de mortes por COVID batia bem com o excesso. Em outros lugares era menos e em outros bem mais. O Peru, por exemplo, o excesso era uma coisa absurda de mais de 100%. Não é à toa que meses depois, o governo peruano reconheceu muitas outras mortes por COVID. Peru é o mais mais afetado pela crise, algo em torno de 0.6% da população morreu, o que equivaleria aqui no Brasil a algo em torno de 1.250 milhões de pessoas, ou seja a crise teria sido muito mais feia aqui.

          Morrem algo em torno de 70 milhões de pessoas por ano. Logo a mortalidade anualizada da COVID em relação ao número de mortes seria em torno de 3%. Ou seja morreram 3 pessoas a mais a cada 100 do que geralmente morre a cada ano (seus números estão equivocados aqui para mais).

          Portanto, o seu raciocínio fica 10 vezes mais fortes nesse aspecto.

          Porém, não creio que a análise possa ser feita apenas de uma maneira utilitarista assim, nós humanos não funcionamos bem assim em relação a questões éticas.
          Talvez as IA vão tirar esse “ruído humano” nesse tipo de coisa.

          Um abraço!

          1. Realmente, tem razão, fiz algumas confusões com os zeros no cálculo.

            Quanto a ser utilitarista ou não, isso já é feito, pelo que eu sei, nos sistemas de saúde públicos por aí. São usadas métricas como QALYs (quality life adjusted years) para decidir se um tratamento deve ser incorporado ao rol ou não. Quer dizer, esses sistemas já colocam um preço na vida humana. Bom, já que já colocam, então vamos aplicar isso para a pandemia também. Mas, de alguma forma, a pandemia parece estar imune a qualquer tipo de pensamento racional.

  4. Excelente texto.
    Eu concordo com tudo escrito, mas o mundo real é caótico. As pessoas estão cada uma pensando em suas próprias vidas e os políticos não são diferentes.
    Vivemos sob a lógica de um sistema econômico que não coloca o bem comum como prioridade. Não estou reclamando, é o mundo como ele é.
    A próxima geração herdará um mundo realmente complicado, mundo do trabalho em constante mudanças, uma parcela excluída cada vez maior, uma brutal desigualdade. Se nossa geração tem sérios problemas de ansiedade e depressão, temo que a próxima será bem pior.
    E isso é uma realidade mundial, mas que no Brasil é bem pior. O desânimo e a falta de esperança é a realidade da maioria dos jovens.
    Infelizmente o que se pode fazer é cada um fazer sua parte como pai e tentar dar uma vida diferente para seu filho, pq coletivamente estamos perdidos.

    1. Fala Dedé!
      Não sabemos o que o futuro nos aguarda, e nem como as novas e vindouras gerações lidarão com os problemas.
      Você tem bastante razão em certas coisas, mas num outro aspecto nunca tantas oportunidades para seres humanos como um todo como nos dias atuais.
      Mas, eu realmente acredito que temos a obrigação de deixar, de modo geral, um mundo melhor para quem é ainda criança ou ainda não chegou.
      Um abraço!

  5. Que bom que voltou a escrever, Soul!

    Sou pai há menos de duas semanas. Hoje minha filha está com 12 dias. Que garganta poderosa que esses pequenos têm, não é?

    Nossa pediatra relatou que já atendeu duas crianças na faixa dos 8 anos com osteoporose, acredita? Osteoporose!

    É até engraçada a reação das pessoas quando afirmamos que não daremos fórmulas e chupetas/madeiras para nossa filha. Pelo menos aqui, há uma naturalização desses itens. E nem conto a surpresa quando ficam sabendo que o parto foi natural! kkkk

    1. Oie meu amigo, tudo bem?
      Parabéns pela chegada de sua pequena! É uma força vocal que meu deus..hehe
      Se eu nos meus shows como cantador amador de butequim berrasse um décimo do que a Serena fazia, minha garganta ia para o saco depois de uma hora.
      Até nisso a gente observa como a evolução, e as explicações que vem dela, é poderosa.
      Inacreditável, não? Esse é um dos inúmeros custos enormes que nossa sociedade irá pagar por não ter colocado quem realmente é o mais importante, as crianças, em primeiro, segundo e terceiro lugar.
      Dar fórmula, quando não há necessidade médica real, é algo sem sentido e perigoso.
      Chupeta não dê, não tem motivo para a criança usar, e em alguns casos faz a criança perder a força na sucção e abandonar a a amamentação muito cedo.
      Se conseguir, não deixe ela ver telas. Minha filha com quase 3 anos nunca viu um tablet, ou um celular, e não tem interesse por isso. Pode ficar tranquilo que nossas filhas viverão num mundo digital, mas esse não é o momento de exposição.
      Parto natural tem inúmeros benefícios para as crianças, e mães, que se estendem décadas para a frente na vida de uma criança.
      Cesariana é algo importante e muito bom quando feito de maneira adequada e com a indicação correta. Segundo a OMS, algo em torno de 15% dos partos deveriam ser cesarianas, se não me engano no Brasil quando li a estatística eram 60%, ou seja, uma loucura total.

      É uma jornada e tanto, meu amigo. Com vários desafios, dificuldades, mas com prazeres, satisfações, enormes.

      Um grande abraço!

  6. Acho que você está dando importância para a exceção. O que me parece mais comum são pais dando maus exemplos para as crianças ao não usarem máscaras ou usando daquele jeito tosco. Uma falta de civilidade, um desrespeito com o outro, com a vida em sociedade… Me parece que isso é mais danoso à educação nas novas gerações. Bom vê-lo de volta.

  7. Agora que querem vacinar crianças com estudos feitos a toque de caixa, os pais estão se perguntando se é bom negócio. Eu não tenho filhos, mas sobrinhos pequenos. E não, não sou anti-vacina, até tomei 2 doses (3ª dose virou bagunça, mas cada um sabe o que quer).

    Imagina você dar alguma imunidade para seu filho que tomou vacina e ela adquirir algum efeito danoso daqui uns anos como trombose ou miocardia? Outro dia fiz uma conta dos menores de 18 anos que morreram de covid no Brasil, saiu no site da exame e dizia que foram mais de 600, sendo 80% dos mortos e 70% dos hospitalizados acima de 12 anos. A conta deu 0.001 de mortos abaixo de 18 anos.

    Tenho fotos de todo Natal do meu sobrinho, sempre magro. Agora ele é obeso, não sai de casa pra nada. É YouTube e Videogame o dia todo. Ele tem uma prima com diabetes descoberto quando tinha 12, embora ela sempre ter sido magra. Eu espero que a pandemia termine para eu levar meu sobrinho pra pedalar. Pedalei como nunca nessa pandemia, sempre sozinho e sem máscara.

    1. Fala John, tudo bem?
      A prima do seu sobrinho muito provavelmente foi diagnosticada com diabetes tipo 1 e não do tipo 2. Apesar de levar o nome diabetes são doenças completamente diferentes. A tipo 1 é muito mais comum em crianças.

      Sobre vacinas e jovens, é tudo uma relação de risco x retorno. Qual é o risco de uma inflamação no coração não tomando a vacina e contraindo o vírus x tomando a vacina. Em adultos acima de 40 anos, o risco é muito maior de ter uma inflamação no coração por ter contraído o vírus, e não pela vacina. Em adolescentes, apesar do que dizem por aí, a relação não é tão clara assim. Uma análise do CDC americano estimou algo em torno de 60 inflamação no coração para cada 1m de adolescentes meninos vacinados, o seja um efeito adverso para cada 17 mil vacinados. É bem raro. Mas eu queria ter uma estatística mais robusta de quantos adolescentes sofrem inflamação no coração pelo contágio do vírus. Só assim é possível fazer uma análise racional. Se o jovem já tiver tido uma infecção prévia e ter desenvolvido imunidade, aí a vacinação perde qualquer sentido, e apenas se assume risco, apesar de ser pequeno, sem ter nenhum benefício potencial.

      O Brasil infelizmente teve mais mortes de crianças por COVID do que países europeus e os EUA, por exemplo. Esse seria um belíssimo tema de pesquisa para tentar encontrar os motivos.

      Vacinar crianças de 5-6 anos, porém, é outro esquema, e realmente temo que está tendo uma pressão para que isso ocorra, sem haver dados robustos sobre a necessidade disso ocorrer.

      Um abraço!

  8. Olá, Thiago.

    Que bom ver você de volta por aqui.
    Concordo com seu post.

    Uma coisa que eu vejo muito por aqui é que as pessoas parecem que não param para pensar.
    Faz sentido usar máscara dentro do mato ou dentro de um carro sozinho?

    A mídia em geral colocaram medo nas pessoas e muitos aceitaram. A doença é grave, mas não para todo mundo. Não tem lógica de tratar todos iguais. O ainda estão batendo na mesma tecla desde o início, já faz quase 2 anos e usam a mesma tática. Não aprenderam quase nada.

    O que mais me preocupa hoje é a liberdade que estão tirando de nós e muitos são a favor disso.

    Abraços!

    1. Fala Cowboy, beleza?
      Agradeço o comentário.
      Usar máscara dentro de um carro sozinho já é condicionamento, igual aos cachorros de Pavlov.
      Um abs amigo!

  9. Caramba, Soul.
    Aqui na zoropa a molecada fica de mascara na escola o tempo todo em varios países.
    Nao brinca que estao fazendo isso à toa.
    Se for o caso, esses governantes tem que ir pro tribunal de Haia.

    1. Opa amigo, beleza?
      Está na Europa, em qual país?
      Abaixo de cinco anos crianças que usam máscara, usam contra recomendação técnica da OMS.
      De 5-11 anos a recomendação técnica para uso precisa ser sopesada com vários pré-requisitos.
      As consequências positivas e negativas serão tantas, o assunto é tão complexo e envolve tantas nuances de tantos assuntos, que a responsabilização de quem quer que seja não é possível.
      Além do mais, melhor focarmos em aprendermos com isso para nos tornarmos mais fortes para próximas crises que virão.

    1. Fala José, tudo bem?
      Acho que adultos podem fazer o que bem entenderem. Cada um é responsável pelos seus próprios atos.
      E, sim, para ambientes fechados, se a região onde você se encontra está com número grande de casos, se a permanência num ambiente fechado vai ser prolongada, se houver muitas pessoas, pouca ventilação, um adulto pode com certeza usar máscara para mitigar um pouco os riscos de eventual infecção.
      Um abraço!

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