Cisne Negro: Como Raciocinamos Incorretamente

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Cisne Negro, e isso lá existe? Vá até o final do artigo para uma prova cabal de sua existência. E por qual motivo um conceito como cisne negro é importante para a nossa vida no dia a dia?

O tema não é novo, e já escrevi há alguns anos um artigo com tema correlato chamado viés de confirmação – nossa preguiça mental.

Esse viés mental  é tão alastrado que é  impressionante observar como  está em todo o lugar.  Está em mim, está em você, no seu comentador político favorito, basta ser humano.

As redes sociais aprofundaram o problema, e estão fazendo que uma parcela significativa das pessoas simplesmente raciocine cada vez da pior maneira possível. Sim, o viés de confirmação, o nosso grande adversário mental em nossa vida.

 

Todos Os Cisnes São Brancos?

 

Comecemos pela frase: “Todos os Cisnes são Brancos”. É como o Nicholas Taleb inicia o seu famoso livro “A Lógica do Cisne Negro”.

O que ocorre com a afirmação “Todos os Cisnes são Brancos”? Aqui, acontece algo muito interessante sobre o que entendemos como verdade.

Eu não posso afirmar com certeza absoluta que a afirmação “Todos os Cisnes são Brancos” é verdadeira. Eu posso ter observado 10 mil cisnes brancos, 100 mil cisnes brancos, 1 milhão de cisnes brancos, e mesmo assim não posso dizer que a afirmação é necessariamente verdadeira.

E por que não? Pois basta a observância de um único cisne negro para que a minha teoria com centenas de milhares de observações seja falsa.

Este é um dos maiores insights que você pode ter em relação a forma de raciocinar, então prezado leitor preste atenção, pois irei repetir: UMA ÚNICA OBSERVAÇÃO PODE PROVAR QUE UMA TEORIA OU HIPÓTESE É FALSA, MILHARES DE OBSERVAÇÕES NÃO PODEM AFIRMAR QUE ELA É VERDADEIRA.

Cisne Negro e a Ciência

 

E por que isso é importante? É importante, pois é assim que o ser humano faz ciência.

Há até mesmo um grande filósofo chamado Karl Popper que elaborou os termos de uma “filosofia da ciência”, assentando o que pode ser considerado Ciência ou Não. Basicamente, para ele, uma proposição só pode ser considerada científica se ela pode ser “falseável”, ou seja demonstrada falsa.

Como não podemos afirmar que alguma coisa é verdadeira mesmo com muitas observações, mas podemos dizer que algo é falso com uma única observação, fica evidente que a maneira mais inteligente de encarar a vida é buscar por informações que de alguma maneira mostrem que nossas convicções ou ideias são falsas.

Ou seja, procurar um cisne negro, mesmo quando todos os cisnes ao nosso redor sejam aparentemente brancos.

Quer dizer que nunca teremos a Verdade?“Quer dizer que a ciência não se preocupa com a verdade, mas sim provar o que é falso?” . Não é possível afirmar que existe uma verdade absoluta (tirando crenças pessoais) em nossa análise da realidade?

 

Teorias Postas à Prova

 

Não, e essa é a diferença entre a Matemática e tudo o mais. A Matemática é o único campo do conhecimento que podemos falar sobre Verdades com V maiúsculo, e geralmente elas são chamadas de Teoremas.

Quanto mais uma teoria é colocada à prova, seja por observações seja por tentativas de “falsificá-la”, isso quer dizer que a Teoria se sustenta com mais força e pode ser uma descrição mais próxima do que a realidade possa ser.

Mais próxima, sim? Como discuti com um professor universitário em meu primeiro podcast, modelos são apenas aproximações da realidade. Se quiser ouvir, aqui está o episódio:

Isso também se aplica a teorias. Não se pode dizer com certeza absoluta que uma determinada teoria é a descrição precisa da realidade, sendo a mesma 100% verdadeira em todos os seus aspectos.

Se nós pararmos para refletir um pouco sobre os parágrafos anteriores, já podemos perceber o quão sem sentido é a busca frenética das pessoas por lerem ou ouvirem algo que simplesmente reforça suas ideias prévias.

É o equivalente de procurar mais cisnes brancos para provar que a afirmação “Todos os Cisnes Brancos” é verdadeira.

 

O Viés de Confirmação

 

O Viés de Confirmação é a nossa tendência de procurar por “fatos”, informações, perspectivas que corroborem a nossa forma de apreender a vida e a realidade.

Esse é o principal erro de julgamento, é o seu principal inimigo para tomar boas decisões na vida e para entender a realidade com mais profundidade.

Todos nós somos afetados por esta forma de ver o mundo. A grande diferença é se nós estamos conscientes disso, e se nos esforçamos para evitar que sejamos influenciados em demasia principalmente nas grandes decisões em nossa vida.

Está tudo muito teórico e abstrato? Bom, para mim a capacidade pensamento abstrato é A capacidade para se entender o mundo. E num mundo cada vez mais complexo, ela será A capacidade que distinguirá países que irão prosperar ou não.

Porém, vou colocar um exemplo concreto meu envolvendo investimentos.

 

Um Exemplo Pessoal Sobre Leilão de Imóveis – Quando Um Cisne Negro é ignorado

 

Em 2015, inclusive escrevi sobre isso à época, eu conjecturei que a crise econômica iria fazer com que houvesse muitos imóveis indo a Leilão.

Como não poderia ter certeza, mas eu imaginava que poderia estar, resolvi me manter líquido e não carregar posições onde eu não pudesse ter acesso ao meu dinheiro.

Além do mais, como fiquei quase dois anos viajando, eu não queria me importar com análises mais sofisticadas de instrumentos financeiros.

No final da viagem, eu comecei a me questionar se tinha sido uma decisão sábia. Poderia ter escolhido instrumentos mais ilíquidos, além do mais que nos dois anos de viagem comprei apenas um imóvel.

Refleti que isso tinha me custado tranquilamente seis dígitos de custo de oportunidade, se eu considerar a diferença entre o 93% líquido de CDI que ganhei à época aplicando no BB e eventuais outras aplicações de características semelhantes.

Acontece, que eu estava certo. Entre o final de 2016 e metade de 2018 ocorreram leilões de bons imóveis numa frequência absolutamente sem precedentes, ao menos para mim.

Leilões bons que ocorriam, quando ocorriam, uma vez por ano, estava ocorrendo todos os meses.

Resultado, nesse período comprei dezenas e dezenas de imóveis, consolidei o meu patrimônio de uma maneira que me fornecesse ainda mais segurança para largar o cargo de Procurador Federal e iniciar uma nova etapa em minha vida.

Aprendi muito mais do que eu já sabia sobre leilões, pois mergulhei a fundo mesmo no tema.

Certo, alguém pode estar pensando, mas qual é a relação com o texto?

Quando estava pesquisando um imóvel potencial à época, eu já estava praticamente certo que valeria a tentativa de arremate até um determinado preço.

Foi quando, ao pesquisar pela internet, vi um imóvel com características que poderiam ser semelhantes por um preço muito menor do que eu achava que poderia valer o imóvel objeto de pesquisas.

Eu já tinha visto alguns imóveis semelhantes que estavam corroborando a minha ideia de preço, e quando vi este de preço inferior, eu de maneira consciente-inconsciente resolvi ignorar esta informação. Sim, pura e simplesmente ignorar a informação dissonante.

Eu ignorei a informação. Não sou especialista em finanças. Entendo os rudimentos de economia. Tenho apenas conhecimento razoável de direito. Porém, de leilão de imóveis extrajudiciais eu entendo muito mesmo, ou seja, não era nenhum amador à época.

Alguns minutos depois, alguma coisa aconteceu, e eu apenas refleti comigo mesmo “Viés de Confirmação mesmo? É isso que você chama de uma boa análise?”.

Eu estava procurando por cisnes brancos, quando na verdade deveria estar olhando por cisnes negros, por informações que desafiassem a minha ideia já quase que solidificada de que poderia ser um bom negócio.

Eu, sinceramente, não lembro se a informação desse imóvel foi relevante ou não, pois nesse período de 18 meses analisei centenas e centenas de imóveis para potencial arremate, mas posso tranquilamente dizer que ligou o sinal amarelo de como nós podemos ser traídos muito facilmente, e como o Viés de Confirmação é algo que pode se apossar da gente com uma facilidade tremenda.

 

O Seu Adversário Interior

 

Sendo assim, meus prezados leitores e amigos, você possui um adversário em sua mente para a sua própria evolução. Este opositor parece ser uma força amiga, mas não é, ela é uma das formas mais deletérias que você terá que se esforçar para superar em certa medida.

O Viés de Confirmação vai fazer você andar com pessoas que parecem com você, ler textos de pessoas que pensam como você, e perceber o mundo da forma que você já percebe o mundo.

Você vai se sentir bem, se sentir tranquilo e sua vida será mais fácil. Um mundo de certezas e pouca dúvida o aguarda.

Para mim essa é uma vida pobre, seja do ponto de vista humano, seja do ponto de vista intelectual. Em minha opinião, isso é transformar a sua vida numa Coréia do Norte auto-imposta.

Já pensou nisso? O que não é um regime totalitário senão a apresentação da realidade com apenas uma forma possível, proibindo outras formas concorrentes de explicação do mundo. Ou seja um amontado de cisnes brancos sem a possibilidade de qualquer cisne negro.

Compare isso com pessoas lendo apenas textos ou ouvindo pessoas que dizem exatamente o que elas já pensam como ser o correto, simplesmente ignorando outras formas de ver o mundo, ignorando um cisne negro existe.

É um regime de auto-censura, é a criação da sua própria Coreia do Norte intelectual. É isto que você quer para a sua vida, leitor? Eu creio que não.

Uma vez vi num blog um comentário de um leitor dizendo assim: “O texto é brilhante, meus parabéns. Você pensa exatamente como eu penso”. (…). (…).

Preciso comentar alguma coisa? A pessoa não está elogiando o autor do texto, mas a si própria. No fundo, o viés de afirmação em alguns temas nada mais é do que isso, uma forma de simplesmente ver qualidades em nós mesmos, mesmo que elas não sejam reais ou tão fortes.

 

Cisne Negro, Peru e O Problema da Indução

 

Por fim, termino este artigo com o famoso  problema da indução, ou carinhosamente chamado Turkey’s Problem pelo Taleb. Não é o Viés de Confirmação, mas de alguma maneira está conectado com ele.

É a História de um Peru de Thanksgiving (o feriado americano). Ele é um Peru e todo o dia é alimentado por um homem.

Nos primeiros 50 dias, ele desconfia. Porém, depois de 200 dias sendo alimentado pelo Homem, ele simplesmente aceita o fato de que a vida é assim mesmo “Perus são alimentados pelos homens”.

Passam 800 dias, e o Peru não poderia estar mais certo de que a vida é boa, todas as evidências apontam para isso, “vejam há 800 dias eu sou alimentado, eu tenho 800 peças de evidência que o Homem que me alimenta gosta bastante de mim e a vida é boa” pensava o Peru.

A cada dia que passa o bem-estar do Peru aumenta, e ele está cada vez mais confiante. TODOS OS CISNES SÃO BRANCOS, NÃO HÁ CISNE NEGRO.

Porém no 1.001 dia, isso acontece:

O Cisne Negro do Peru
Quando o cisne negro ocorre e milhares de dados se tornam irrelevantes

 

O Peru é degolado para ser servido como ceia no famoso feriado estadunidense. Todas as 1000 peças de “evidência” não serviram para absolutamente nada. Bastou apenas uma única observação para tudo ruir.

Não seja o Peru, sem qualquer trocadilho, prezado leitor. Não se entregue tão facilmente para o viés de confirmação.

Busque informações que mostrem que você pode estar errado, principalmente quando tiver que tomar grandes decisões. Procure por cisnes negros, não por mais cisnes brancos.

Não quer dizer que deve ficar paralisado ou impotente, claro que não. Isso apenas fará com que você fique mais forte e tome decisões muito mais acertadas, principalmente quando os resultados possam ser incertos.

 

Cisne Negro
Cisnes Negros existem

 

Encarando um Cisne Negro
E Eu Destemidamente não tive “medo” de encará-los de frente! (Rotorua – Nova Zelândia)

 

Um abraço a todos!

obs: A um leitor que conhece mais a obra do Taleb poderá se perguntar sobre a forma como a ideia do cisne negro foi apresentada. Para esse escritor um cisne negro é um evento de baixa probabilidade e de certa forma imprevisível. É o “desconhecido desconhecido”. Entretanto, a utilização da expressão cisne negro como um evento em dissonância com o acúmulo de dados anteriores (muitos cines brancos) é utilizado pelo mesmo autor no começo do seu livro “A Lógica do Cisne Negro”.

obs1: cisnes negros são extremamente comuns na Nova Zelândia

 

29 respostas para “Cisne Negro: Como Raciocinamos Incorretamente”

  1. Olá, Soul!
    O método científico utiliza muito esse raciocínio indutivista. Estamos tão envoltos com essa forma de pensar que não percebemos o seus riscos. A partir do particular, da experiência, da observação tentamos inferir uma conclusão, uma verdade. Todavia, esquece-se que não é uma conclusão definitiva, mas uma verdade parcial, incompleta, mutável, que pode ser refutada por um fato divergente. Embora difícil, é importante manter a flexibilidade nos conceitos para conviver com essa incerteza. Grande post! Abraço

    1. Olá, Faleasco.
      Grato pelo comentário, amigo. Creio que é isso mesmo. Precisamos construir “nossas verdades”, mas ter em mente que elas quase sempre serão provisórias e por isso devemos ter a flexibilidade de admitir que possamos estar errados.
      Abraço!

    1. Olá, colega. Não tenho dúvidas que meu cérebro ansiava ou anseia por isso. Porém, realmente aprecio comentários que vão de encontro a algum texto que produzo, desde que bem produzidos né, alguns deles já me fizeram refletir bastante.
      Abs

  2. É perigoso levar esse raciocínio longe demais.

    Sim, é verdade que podem existir cisnes negros. Mas eles também podem não existir. É perigoso gastar muita energia procurando cisnes negros em todo lugar. Claro que depois que você já achou 1 milhão de cisnes brancos, descobrir um cisne negro seria muito melhor do que descobrir mais 1 milhão de outros cisnes brancos. Porém, chega uma hora que é preciso considerar a possibilidade de que, de fato, existam apenas cisnes brancos.

    O verdadeiro raciocínio do cientista é bayesiano: realmente não existem verdades absolutas, mas cada nova evidência favorável aumenta a probabilidade de que algo seja verdade. Chega uma hora que a probabilidade está tão a favor que se torna irracional continuar acreditando na hipótese contrária.

    Um estudo científico analisando um medicamento não busca verificar que 100% das pessoas são curadas com o medicamento e 0% com placebo. Na verdade, não busca nem mesmo ter certeza absoluta de que 1% a mais de pacientes serão curados pelo uso do medicamento. Basta saber que, estatisticamente falando, as evidências indiquem que em pelo menos 95% das vezes em que o experimento for repetido, o resultado seja a favor do medicamento.

    Cientistas não pensam em termos de verdades absolutas, mas também não ignoram as probabilidades.

    1. Olá, Swissone. Grato pelo comentário, fico feliz de receber uma resposta sua, geralmente você acrescenta bastante.

      Claro, eu concordo contigo. Por isso no texto tive o cuidado de :
      “Quanto mais uma teoria é colocada a prova, seja por observações seja por tentativas de “falsificá-la”, isso quer dizer que a Teoria se sustenta com mais força e pode ser uma descrição correta da realidade. Porém, nunca poder-se-á dizer com certeza que essa Teoria é verdadeira com 100% de certeza.”

      Concordo. Podemos pensar nisso sobre a gravidade, as fórmulas de aceleração uniforme, etc, etc. Há determinadas ocorrências explicáveis por nossas teorias que realmente aparentam ser a descrição verdadeira da realidade e não creio que Cientistas estejam procurando por fatos que as desmintam. Agora, se eles por ventura vierem a existir, tenho certeza que mesmo teorias bem estabelecidas podem ser revistas.

      Sobre o Estudo de Medicamentos, este não sei se é um bom exemplo. Inclusive o Taleb em seu novo livro comenta a respeito especificamente sobre esse tópico. O problema com estudos sobre medicamentos feitos antes de serem colocados no mercado, é que simplesmente não se pode saber os efeitos que um medicamento pode ter num organismo complexo como o nosso no longo prazo. Simplesmente não se pode. A segurança, ou eficácia de um medicamento, só poderá ser atestada depois, quando dezenas de anos tiverem passado, e estudos posteriores poderão ser feitos.

      “Cientistas não pensam em termos de verdades absolutas, mas também não ignoram as probabilidades.” Você está correto.

      Porém, no nosso dia a dia, a esmagadora maioria das pessoas raciocina não como um cientista, mas ao contrário, às vezes acreditando em verdades absolutas, e ignorando as probabilidades.

      Abs

  3. Pois é soul porém tenho uma resalva:
    Perus são animais irracionais e não podem observar o mundo como observamos.
    O homem pelo menos no meio da sua jornada pode ver que está errado. O Peru ao contrário jamais vai perceber isso é nem no último dia pois não tem consciência.

    Hoje eu posso ter um pensamento sobre algo que julgo correto e acertado mas amanhã tudo pode mudar.

    1. Olá, Sofrendo!
      Claro, a história do Peru é apenas uma estória, tire o Peru e coloque a Enron, por exemplo.
      Sim, sua frase é certeira. Porém, às vezes pode ser tarde demais, e isso que o “exemplo do Peru” pretende demonstrar. Precisamos estar atentos para fatos, ou situações, que possam subverter por completo a nossa vida. O conceito é muito melhor trabalhado no último livro do Taleb chamado “Antifrágil”, livro que recomendo.

      Um abraço

  4. Coincidentemente hoje mesmo eu estava revisitando o livro do Taleb O Cisne Negro… Vc tem razão. Não bastasse a tendência de acreditarmos que todos os cisnes são brancos, ainda caímos na tentação de ignorarmos as aparições de cisnes negros.

    Vc quase caiu nessa em relação ao imóvel que encontrou similar ao que iria comprar e que estava num preço mais vantajoso do que pretendia pagar… Quase… Vale a pena pensar resistir a tentação do viés de confirmação!!!

    Teorema econômico? kkkkkkkkkkk

    Abraços.

    1. Olá, I.Risco.
      Pois é, vale sim. Se não em tudo na vida, pois seria muito cansativo, ao menos quando estamos prestes a tomar uma decisão importante.
      Abs!

  5. Soul estou procurando aprimorar meu raciocínio lógico e tentando aplicar o método científico em quase tudo que faço (investimento, estudos, trabalho e etc.). Quais livros você recomenda para quem deseja refinar e afiar os pensamentos?

    1. Olá, colega.
      Eu sugiro ler sobre tudo. Literatura Russa, Biologia, Investimentos, etc, etc.
      Há um ótimo site em Inglês, um dos melhores, que é dedicado a explorar como pensamos e traz centenas de livros sobre os mais variados tópicos, estou sempre pegando dicas naquele espaço.
      Chama-se Farnam Street: farnamstreetblog.com/

      Abs

  6. Não li ainda o livro do Taleb e tenho muito interesse. Entendo que ele fala de fenômenos que violam os modelos de probabilidade de forma absolutamente espetacular, a exemplo do crash de 2008.

    Sei que já se trata de fugir um pouco do assunto, mas como não consigo me furtar de uma boa discussão, coloco dois pontos:

    1. Medicamentos foram um exemplo, mas o raciocínio é o mesmo para muitas outras intervenções na medicina (cirurgias, estratégias nutricionais, etc.) e um modelo parecido é usado nas outras ciências naturais, como a agronomia. Os resultados estão aí, e o progresso da qualidade de vida do ser humano é inegável por conta disso. O ser humano está muito mais capacitado hoje para enfrentar as adversidades do mundo natural (problemas de saúde, falta de alimentos, etc.) por conta desse processo científico.

    2. No caso específico dos medicamentos, é verdade que existiram problemas pontuais com a segurança de certos medicamentos — um caso famoso são os tratamentos de reposição de hormônio feminino para mulheres pós-menopausa. Por outro lado, existe muito medicamento cuja segurança é questionada nas primeiras fases de pesquisa, e acabam sendo impedidos de serem lançados. Não é porque alguns escapam que o processo é falho. E também não podemos fechar o olho para o imenso progresso que medicamentos testados neste modelo trouxeram para a qualidade de vida do ser humano (antibióticos, insulina para diabéticos tipo I, diversas classes de remédios para problemas cardíacos, etc.) De fato, o ensaio clínico randomizado poderia ser eleito como uma das "invenções" do século XX que mais contribui para o bem-estar humano.

    1. Olá, colega.
      1 – Eu concordo que o progresso em algumas áreas é inegável e assombroso. Em outras, eu tenho sérias dúvidas. Medicina, por exemplo, é uma área que possui claras áreas onde evoluímos muito e melhorarmos a qualidade de vida de parcela significativa dos humanos, em outras áreas eu tenho sérias dúvidas. Porém, concordo contigo que o método científico é uma instrumento poderoso de análise da realidade.

      2 – Talvez a sua área seja médica, se for, fico lisonjeado de discutir um tema como esse com um especialista. Claro. Porém, o meu ponto não foi nem esse, e talvez eu não tenha sido claro. Peguemos o exemplo da Finasterida, muito usada para tratamento de calvície. Há uns 13 anos eu resolvi tomar, e tomei durante uns 9 meses. Mesmo que eu não refletisse a respeito, ainda bem que parei de tomar esse medicamento. Ao conversar com uma dermatologista há umas semanas, ela me disse que estão saindo novas pesquisas, agora que o uso da finasterida como tratamento de calvície já possui algumas décadas, que estão mostrando que os efeitos colaterais podem ser muito mais severos do que se imagina. Agora, se pensarmos, por qual motivo tomar um inibidor de hormônio de uso contínuo para tratar um “problema” estético? Esse foi o “pensamento inconsciente” que tive na época. Foi esse o meu ponto.
      Creio que há um exagero no uso de medicamentos, e isto pode ser extremamente perigoso. Agora, evidentemente há casos onde o uso de medicamento não só é recomendado, como necessário. E, sim, os testes clínicos aludidos por você são uma forma de testar medicamentos que vem se mostrando, dentro da limitação que temos, em muitos casos bem sucedida.

      Um abraço!

      obs: Na verdade, eu creio que uma das coisas que mais contribuiu para o nosso bem-estar e para o aumento da expectativa de vida foi o saneamento básico. Pretendo escrever um dia sobre isso.

      1. Eu fui um que tomou finasterida após ler que a probabilidade de sentir os efeitos colaterais (de acordo com o próprio fabricante) era de apenas 2%. Fiz como vc, tomei por uns meses e parei, mas senti por um bom tempo os efeitos colaterais e a questão nem é se eu estava entre esses 2% ou não, mas que hoje há estudos comprovando que a probabilidade era/é muito maior que divulgada anos atrás.

        Continue com seus excelentes textos. Parabéns! (E isso não é viés de confirmação da minha parte, pois discordo de algumas coisas).

        1. Oie, colega.
          Sim, qualquer medicação tem efeitos. Nenhum estudo vai dizer quais são os efeitos de 10-15 anos, pois eles não são construídos para responder esse tipo de questão. É a mesma coisa com agrotóxicos.
          Eu creio que nessa área deve imperar o princípio da cautela.
          Ter cabelo não é essencial, nem mesmo importante para mim, portanto não fazia, ou faz sentido, tomar uma medicação por anos e anos. Mas se alguém acreditar que faz sentido, desde que a pessoa tenha consciência do que está fazendo, sem problemas.
          Um abraço!

  7. Soul,

    Muito bom cara …. é . .tem uma teoria da conspiração que diz que as crises são criadas de propósito para que os ricos fiquem ainda mais ricos .. e tem uns estudos que dizem que a cada crise, aumenta o número de bilionários no mundo .. hehe ..

    Abs,

    1. Olá, Rodolfo.
      Essas teorias…
      Porém, é inevitável que crises econômicas severas atinjam duramente quem pouco tem, e menos duramente a camada de cima da sociedade.
      Abs

  8. Olá Soul, belo texto.
    Sempre concordo com boa maioria dos seus textos, mas há também casos em que nao concordo nada…rs!Acho isso saudável! Só sei que nada sei!
    Aproveitando o assunto, gostaria de sugerir um tema para um post. Vc poderia listar suas fontes de informacao atualmente (sites, canais do youtube, etc.) e seria interessante tb listar onde vc consulta os "contra-pontos" a essas fontes. Tenho curiosidade de saber, talvez elas nem sejam fontes online…rs!!! Nao sei se é um feeling só meu, mas tá dificil conseguir informacao mais neutra atualmente (sei q nao existe isencao, mas msm assim).

    PS: Essa sua pequena descricao dos leiloes já é suficiente pra gerar adrenalina nos investidores de plantao…. Escreve esse livro logo….haha!!!

    Abs

    1. Olá, Rafael!
      Grato, amigo.
      Eu estou longe de ser neutro, até porque tenho certas convicções do que seja certo ou errado. Então, naturalmente, é muito difícil achar alguma fonte de informação neutra. Porém, uma informação mais imparcial não é tão difícil.
      Eu não saberia dizer, Rafael. Acho que ler “Crime e Castigo” ajuda tanto na compreensão do mundo e da realidade, como ler “Rápido e Devagar” do Kanheman, por exemplo. Creio que o que penso e sou é um processo lento e gradual que começa com a boa educação recebida dos meus pais quando era bem pequeno, passado pelas diversas experiências com a diversidade na adolescência, na minha formação numa universidade federal, nos meus dissabores, nas minhas viagens e leitura. Cada um possui o seu próprio caminho no descobrimento do mundo.
      Eu creio a The Economist uma boa fonte para se saber notícias do mundo. Lembro de ler há muitos anos uma reportagem sobre o Wahan Valley do Afeganistão, e toda a sua importância estratégica. Não sei por qual motivo, mas isso ficou na minha cabeça. E qual não foi minha alegria, quando fiz uma aventura pelo Wakhan Valley na parte do Tajiquistão e fiquei alguns metros do Afeganistão (a fronteira é um rio). Ou seja além da beleza natural que é uma coisa de louco, foi muito interessante estar num lugar sobre o qual tinha lido anos antes numa pequena reportagem da The Economist. Isso tudo é aumento de compreensão do mundo.

      obs: até estava escrevendo, estava num bom ritmo, mas dei uma parada por causa desse “agito” no mercado de leilões, que se tudo der certo vai me colocar onde pretendia estar no tocante a Independência Financeira.

      Um abraço!

  9. Soul, meu comentário foi conciso e mesmo comentários concisos podem despertar reflexões profundas.
    Procurei fazer um contraponto ao que você explicou, mostrando que nesse momento o que provavelmente você esperava era a confirmação do seu pensamento pelos comentaristas.
    E vamos ser sinceros. Quem não espera pela onfirmação ou apoio de suas idéias?
    Quem nãose sente ou se sentiu contrariado por não ter um comportamento apoiado?
    Isso tudo é humano. Embora as excessões existam (felizmente).
    As excessões costumam pagar pelas regras. Talvez voê tenham imginado ao ler meu comentário que eu seria apenas alguém desocupado tentado tirar um sarrinho do seu texto, algo tão comum na internet. Espero que você agora tenha percebido que eu sou uma excessão a essa regra, ou um cisne negro como você exemplificou.

    Saido um pouco desse assunto já lí que você pretende escrever um livro. Tenho uma sugestão simples, mas criativa: Soul Eu.

    Caso aceite a sugestão não deixe de me citar nos créditos.

    1. Olá, colega. Não entendi como o seu primeiro comentário como um “sarrista” da internet. Eu o achei bem apropriado.
      Claro, é profundamente humano. Não há problema nenhum nisso. Porém, isso pode ser um grande erro em algumas ocasiões, principalmente quando estamos prestes a tomar uma decisão importante.

      Obrigado pela sugestão, mas eu estou longe de ser um personagem tão interessante para fazer um livro sobre mim mesmo.

      Abraço!

  10. Thiago obrigada pelo post. Como seres humanos temos a necessidade de pertencimento, nisso ficou uma pergunta, como faz pra manter a auto estima nesse cenário de constante procura pelo cisne negro? Como se sentir bem em não ter certeza? Não corremos o risco de ser pessoas “em cima do muro” demais? Coincidência, estou lendo agora o Antifrágil, cada rasteira que sinto com as palavras desse livro.

    1. Olá, Joy!
      Então, creio que entendo a sua preocupação, mas não sei se vejo necessariamente uma relação com o tema.
      O fato de não vivermos vidas de “certezas inscritas em pedra” no meu entendimento não diminui a nossa auto-estima, pelo contrário, pois torna os nossos eventuais erros muito mais tranquilos de ser aceitos por nós mesmos.
      Também não creio que reconhecer a limitação do nosso entendimento crie pessoas indecisas (vou colocar nesse sentido a sua expressão “em cima do muro”).
      É verdade que não podemos ficar parados muitas vezes, e precisamos nos mexer no mundo, e faremos isso com o conhecimento que temos no momento. O ponto não é criar uma paralisia, há inúmeras explicações sobre os diverso fenômenos da realidade que fazem sentido, podemos fazer uso dessas explicações, aliás é saudável e racional que assim o façamos. O que não podemos é ficar apaixonados ou cegos por determinadas “certezas”.
      Um grande abraço!

  11. Justamente aí mora o problema. Focar no cisne negro e dar a ele mais importância do que o cisne branco. Se vc pensar assim não fará nada, ficará paralisado no tempo sem ação. É como os peppers do fim do mundo. E se vc viver toda sua vida sem ver o tal do cisne negro?

    1. Olá, colega.
      Não imaginava que essa interpretação era algo comum (já é o segundo comentário nesse sentido), senão teria dado um pouco mais de foco nessa questão. Quem sabe um texto próprio para isso.
      Se você cria uma teoria, por exemplo, para explicar o fenômeno de ondas gravitacionais. E acha apenas dados da realidade que corroboram, e nenhum que não o corrobora, ótimo. Sua teoria parece ser algo robusto, como a Teria da Gravitação de Einstein, por exemplo.
      Se você quer comprar um imóvel no leilão, fez as análises jurídica, financeira e imobiliária e acredita que é um bom negócio, procurou dados para mostrar que sua análise por ventura esteja errada, de forma sincera, e não achou, ótimo, sua análise é robusta e vá em frente para tentar arrematar o imóvel.
      Acho que o ponto ficou claro, não preciso dar mais exemplos.
      Isso não cria paralisia, mas talvez para pessoas já indecisas possa vir a ser um problema que fugiu do meu radar, mas sim decisões, análises, muito mais robustas e mais compatíveis com a “verdade” da realidade.
      Um abraço!

  12. Excelente texto Soul. Estava querendo muito ler os livros do Taleb mas ouço muitos dizerem para não ler, pois uma vez que vc ler vc vai cair na antrifragilidade e deixar 90% da carteira em renda fixa ou ouro e arriscar com 10%. Não acho que devemos viver nossa vida esperando pelo cisne negro não pois como vc bem falou, pode causar uma paralisia, travar na tomada de decisões, esperar sempre o pior.
    Quem sabe eu ainda leia os livros dele, mas confesso que tenho medo de cair e viver com esta mentalidade.

    1. Olá, AA40. Obrigado pela visita, amigo, o representante brasileiro do F.I.R.E:)
      O pensamento de Taleb vai muito além disso. Ele realmente acredita que com 80-90% você deve fazer o básico, e não acredito que necessariamente apenas investimento em Bonds ou Treasuries, um ETF do S&P500 imagino que para o Taleb deva ser algo padrão. E os outros 10-20% você procurar investimentos com opcionalidade, ou seja grandes possibilidades de ganhos, como ele mesmo se especializou operando opções.
      Mas para além disso, há muitas ideias interessantes mesmo no livro Antifrágil. A beleza da sabedoria dos antigos, o fato de que às vezes é melhor não fazer (iatrogenia em intervenções médicas por exemplo), entre tantas outras ideias interessantes.
      Eu recomendo os livros dele.
      Um grande abraço e grato pelo comentário!

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