Venezuela: Para muito Além do Chavismo

Venezuela

Venezuela e Chávez. Duas palavras que entraram no imaginário popular brasileiro, ao menos de uma parcela da população. Mas será que um país como a Venezuela não é muito mais do que a sua política das últimas décadas?

Nesse artigo, escrevo um pouco sobre um país lindíssimo, mas temido por muitos brasileiros pelo suposto espectro negativo
que lança sobre o Brasil.

Conto a minha experiência de 2011, num texto originalmente escrito em 2015. Muita coisa aconteceu nesse país desde essas datas, muitas coisas mesmo.

Porém, mesmo assim, creio que o presente relato possa ser de valia para algumas pessoas, pois este foi um dos países que mais me surpreendeu na vida pela quantidade de paisagens belas e diversas.

Não é à toa que a Venezuela faz parte do seleto grupo de países com  megadiversidade biológica.

Vamos nessa aventura?

Venezuela e a sua dependência do Petróleo

 

Apesar de suas belezas naturais, imagino que o que vem na cabeça de todos ao citar  a Venezuela é o nome Hugo Chávez ou a palavra Chavismo.

Isso talvez  possa até mesmo obscurecer o simples fato que a Venezuela é muito maior do que o seu sistema político atual.

Não é o meu enfoque, até porque não tenho conhecimento específico para tanto, fazer uma sofisticada e completa digressão sobre as condições políticas, econômicas, históricas e sociais desse país.

Não. O meu intuito é apenas passar, como já fiz com outros lugares, as minhas impressões sobre o que vi e senti ao visitar este extraordinário país.

A Venezuela possui uma característica que a diferencia dos demais países da América do Sul: ela possui muito petróleo.

Se o petróleo é uma maldição para os venezuelanos, se é a porta de saída para uma vida melhor, é difícil dizer para um país com história social e política tão conturbada.

A Venezuela tem tanto petróleo que é o país com as maiores reservas comprovadas do mundo, ultrapassando até mesmo a Arábia Saudita nesse quesito, representando  mais de 20% das reservas mundiais totais de petróleo (não você não leu errado) com mais com mais de 300 bilhões de barris.

Um petróleo a U$100,00 o Barril significa que o país está sentando em 30 trilhões de dólares, com um barril a U$ 50,00 significa 15 trilhões de dólares a menos (simplifico aqui, antes que as pessoas com mais expertise em petróleo reclamem).

Sendo assim, mudanças expressivas no valor do petróleo  podem atingir a Venezuela na ordem de magnitude de centenas de bilhões ou até mesmo trilhões  de dólares.

Além do mais, o petróleo responde por nada mais nada menos do que 99% (quando escrevi a primeira versão  desse artigo em 2015 era 80%, o que talvez demonstra o colapso de outras atividades econômicas no país em tão curto período) das receitas de exportação do país.

Portanto, fica claro que o Petróleo é o sangue da economia Venezuelana, com as eventuais benesses e problemas que isso pode representar.

O Típico Enredo Latino: A Ascensão de Hugo Chávez

 

Todo país tem sua própria e interessante história, mas nos países da América do Sul e Central , o enredo é similar: os europeus chegam e exploram a população nativa, há movimentos nacionais pela independência que muitas vezes resultam em batalhas sangrentas, há uma série de ditadores e governos antidemocráticos nos 150 anos
após as independências, resultando em países pouco desenvolvidos do ponto de vista social, econômico e democrático.

É evidente que isso é uma simplificação grosseira, mas esse é um texto escrito por um não-historiador, mas a Venezuela possui muito desse enredo.

Afetada positivamente pelo aumento brusco do preço do petróleo no início da década de 70 (o que gerou uma expansão enorme de gastos) e depois duramente pela queda dos preços na década de 80 (será que não é o mesmo filme  se repetindo atualmente?), a Venezuela na década de 90 era um país com alta inflação, com o PIB per capta retrocedendo para níveis da década de 60, com grande desemprego e condições sociais e econômicas muito duras.

Foi nesse caldo social e político que um General chamado Hugo Chávez chegou ao poder por meio de eleições democráticas no ano de 1998 (chavez tinha tentado um golpe em 1992), e iria transformar a Venezuela de maneira profunda e chamar atenção não só da região, mas de todo o mundo.

Talvez uma das personalidades mais polêmicas das últimas décadas ao menos na América do Sul.

Chaves e Venezuela
Atrás na foto um dos grandes ícones para Chavéz: Simon Bolivar herói da independência em muitos países americanos. A admiração era tão grande que o nome da Venezuela foi mudado para República Bolivariana da Venezuela.

 

Não vou aqui tecer pesadas críticas ou elogios ao Chávez. Digo apenas duas coisas.

Todas as entrevistas mais densas que eu li ou ouvi sobre a Venezuela sob o regime de Chávez foram de jornalistas estrangeiros que viveram na Venezuela e retrataram uma figura ambígua e complexa: nem o salvador que algumas pessoas ainda insistem em rotular, nem o demônio em que muitas pessoas atualmente gostam de retratar.

A segunda é que quase todos os venezuelanos com quem tive a oportunidade de conversar sobre o tema disseram-me que a grande guinada de Chávez para um radicalismo mais exacerbado foi pós-golpe frustrado de 2002.

Poucas pessoas aqui no Brasil sabem sobre esse golpe, nem como ele foi feito. É considerado um dos primeiros golpes midiáticos da História, numa grande farsa e encenação.

Há um belo documentário sobre o tema feito por dois irlandeses que foram pegos de surpresa quando o golpe aconteceu, creio que eles estavam fazendo um documentário sobre a Venezuela.

Há imagens primorosas feitas, pois mostram o desenrolar do golpe dentro do Palácio Miraflores. O documentário chama-se “La
Revolución no será Transmitida”.

 

Venezuela e Efeitos de Segunda Ordem

 

A invasão no Iraque em 2003 fez com que a região inteira se destabilizasse ainda mais, levando a criação de um grupo terrorista dos mais radicalizados:  O Estado Islâmico.  Assim como a invasão desastrada do Carandiru levou a criação do PCC.

O golpe frustrado na Venezuela levou a uma radicalização de Chávez e do seu projeto de poder.

Se isso foi apenas uma escusa para  Chávez se sentir legitimado, eu não tenho conhecimento para responder. Porém, uma coisa é clara, violência desmedida e impensada geralmente cria resultados muito piores, muitos deles inesperados.

São os chamados efeitos de segunda ou terceira ordem quando ações de intervenção são feitas em sistemas complexos.

Em que pese eventuais erros e lapsos da oposição venezuelana, o ponto objetivo é que hoje a Venezuela é um país em crise econômica, social e política.

Quando escrevi a primeira versão desse artigo a inflação estava em 60%, nos últimos anos a inflação tornou-se hiperinflação. O que era uma crise econômica transformou-se em depressão, ocasionando uma grande crise humanitária que empurrou milhões de venezuelanos para fora do país.

Sim, uma crise de refugiados em plena América do Sul, algo impensável há 5-10 anos.

A divisão da sociedade venezuelana é gigantesca, o que ficou visível nas manifestações violentas dos últimos anos. A  violência
assola o país, o que faz a Venezuela o terceiro país onde mais se  mata por ano, com uma taxa de homicídios quase o dobro do Brasil  que diga-se de passagem já é altíssima

Para piorar o preço do petróleo está em valores bem baixos para padrões históricos. O sucessor de Chávez, Maduro, é alguém que não possui quase nada do carisma do governante anterior, mas parece se manter no poder pela cooptação de setores expressivos do exército venezuelano.

Enfim, se a situação da Venezuela é desesperadora em todos sentidos: econômico, sanitário, humanitário e social.

O Câmbio da Venezuela

 

Sempre quando um país sofre uma grave crise econômica com reflexos em seu câmbio, os governos tendem a impor limites muito restritos para a compra, venda e saída de moeda forte do país.

Quase sempre há muitas limitações para a compra de dólar, o que leva a formação de mercados negros de câmbio.

É aqui que minha história na Venezuela se inicia. Quando estive na Venezuela entre abril e maio de 2011, eu sabia que a cotação oficial
da moeda era de 1 dólar para 4 Bolivares Furtes.

Isso queria dizer que todas as transações oficiais seriam convertidas por essa cotação: ATM, compra com cartão de crédito, casas
oficiais de câmbio.

Entretanto, eu tinha lido no site estrangeiro Trip Advisor que se podia no mercado negro vender um dólar a 8 Bolivares Furtes.

Sendo assim, se algo custasse 80 Bolivares e eu resolvesse usar o cartão a fatura iria sair 20 dólares. Se eu trocasse dólar no mercado negro, a mesma compra custaria 10 dólares.

Portanto, a única solução seria levar dólar em espécie e foi o que
fiz.

Quando escrevi a primeira versão desse texto em 2015, a divergência entre câmbio oficial de 6.3 Bolivares por dólar e o mercado paralelo estava em inacreditáveis 50 Bolivares.

Hoje em dia, pelo que pesquisei, por causa da hiperinflação, o governo trocou de moeda (agora chama-se Bolívar Soberano), porque um dólar estava valendo milhões de Bolívares Fuertes, ou seja, uma hiperinflação para ninguém botar defeito.

Num país que importa quase tudo que consome faz com que o poder de compra da população caia absurdamente, e essa é uma das explicações para a crise de refugiados na Venezuela, para a falta de comida em supermercados e para a crise profunda do país.

 

Minha Entrada Na Venezuela

 

Entrei na Venezuela vindo da espetacular e feliz Colômbia.  A diferença de humor entre os Venezuelanos, principalmente em Caracas, e os colombianos foi um aspecto que me chamou atenção de que algo deveria estar profundamente errado com a Venezuela.

Na fronteira entre Colômbia e Venezuela tentei trocar os meus suados dólares por bolivares pela cotação de oito, mas consegui apenas sete, o que me fez trocar poucos dólares.

A viagem da fronteira até a cidade de Maracaibo na Venezuela foi uma história a parte.

Pegamos um coletivo , que nada mais era do que uma espécie de táxi coletivo, com um casal de ingleses.

Transporte Precário Fronteira Colômbia e Venezuela
Mochilas devida e seguramente acomodadas, o expresso maracaibo estava pronto para partir…

O carro mexia de um lado para o outro, numa das sensações mais esquisitas que já tive dentro de um automóvel, onde eu seriamente temi pela minha segurança e da minha companheira.

Por fim, chegamos ilesos a Maracaibo.

 

Ao chegar à rodoviária da cidade, percebi que não era um bom momento. Era de noite, feriado no país e não havia nenhum ônibus  lugar algum naquela noite e no próximo dia.

Olhei rapidamente o guia Lonely Planet e consegui um táxi coletivo que estava indo para a cidade de Coro. Essa viagem também foi uma outra aventura.

O taxista tentou nos dar um golpe, quase discutimos com policiais chavistas de madrugada e com muita sorte encontramos
uma pousada para ficar.

As primeiras impressões da Venezuela não estavam sendo nada boas.

No dia seguinte fomos de coletivo em coletivo e conseguimos chegar em Caracas. A capital da Venezuela, ao contrário da capital colombiana Bogotá, possui um ar triste, favelas para todos os lados e uma sensação de insegurança no ar.

Eu estava quase desistindo da Venezuela, quando resolvemos tentar ir para Los Roques. Acabei fechando um pacote para Los Roques e o parque nacional Canaima, mal sabia que estava rumando para os lugares mais bonitos em que eu já tive a oportunidade de visitar.

 

Los Roques: Um paraíso na Venezuela

 

Los Roques é um arquipélago de ilhas ao norte da Venezuela no meio do Caribe. Só é possível chegar lá em aviões de pequeno porte para 15/20 passageiros.

Dizem que é o paraíso para KiteSurf (esporte que pretendia aprender em 2015, hoje em dia já não tenho mais tanta vontade), não saberia dizer.

Agora posso afirmar que lá é um dos lugares mais bacanas para relaxar e estar acompanhado que eu já estive no mundo.

Água absurdamente cristalina, ilhas desertas (sendo que a ilha principal nem veículo motorizado tem), uma beleza de cair o queixo.

Passamos alguns dias memoráveis no arquipélago de Los Roques.
Com certeza quero retornar um dia (as fotos a seguir não são minhas).

Los Roques na Venezuela
Posso garantir que as fotos retratam bem o que é Los Roques
Venezuela e Los Roques 2
Praias desertas para se aproveitar..
Venezuela e Los Roques parte iii
Los Roques uma das belezas de nosso continente

 

O Magnífico Parque Nacional Canaima

 

De Los Roques fomos para uma cidade  chamada Ciudad Bolivar , porta de entrada para o espetacular parque nacional Canaima no coração da Venezuela.

O parque é considerado patrimônio da humanidade e é uma atração absolutamente fabulosa, sendo acessível apenas por avião. O parque é imenso e é nele que se encontra a maior queda de água do mundo, o impressionante Salto Angel.

Para chegar até o Salto é preciso ir de barco numa viagem que demora entre 4 e 5 horas, passando por dezenas de Tepuis, que são formações geológicas verticais com o seu topo achatado, como as nossas
chapadas), num percurso de uma beleza indescritível. O transporte é feito por Índios.

Após a jornada de barco, é necessário mais uma hora de caminhada mata a dentro, o que demanda um certo esforço, mas que é prontamente recompensado pela vista magnífica da grande cachoeira.

Há um certo ar de Lost World, o que torna o ambiente muito agradável e diferente para quem viveu toda uma vida em meios urbanos.

Dorme-se no meio do mato em redes numa construção improvisada.

Como a água do rio na região do abrigo é muito rápida não há insetos. Mesmo que houvesse, seria muito difícil que os insetos passassem pelas centenas de aranhas das mais variadas cores e tamanhos que cercavam o acampamento com suas teias.

O dia terminou com uma janta e uma animada conversa com um grupo de holandeses que nos fazia companhia. Conhecemos um rapaz da África do Sul que morava na Austrália e foi uma das pessoas mais engraçadas que já encontrei na vida.

Foi um dia para se guardar na memória.

 

Voo para Canaima
No voo para Canaima o co-piloto não apareceu, o que obrigou a minha companheira a assumir o posto
Passeio de Barco Canaima na Venezuela
Um dos passeios mais sensacionais para se fazer no mundo. São cinco horas dentro de um rio no meio do nada, cercado por dezenas de Tepuis (há um deles ao fundo).
A maior cachoeira do mundo está na Venezuela
Contemplando o magnífico Salto Angel. Infelizmente, fomos  numa estação com pouca água, mas mesmo assim o local é extraordinário.
Acampamento Canaima
A acomodação chique da aventura. Se tem algo que gosto em minha companheira é a ausência de frescura para dormir em lugares como esse, algo de certa maneira não muito usual em boa parte das mulheres brasileiras. O que se mostraria verdadeiro em nossa viagem de dois anos de 2015-2016

A acomodação chique da aventura. Se tem algo que gosto em minha companheira é a ausência de frescura para dormir em lugares como esse, algo de certa maneira não muito usual em boa parte das mulheres brasileiras.

No outro dia, voltamos para a vila indígena de Canaima. Passamos o dia nos banhando no rio em uma paisagem surreal.

Agradeço por ter tido a oportunidade de conhecer lugar tão fantástico
no planeta terra.

Cachoeira Venezuela
Uma paisagem incrível….
Aeroporto na Venezuela em Canaima
Era hora de se despedir de Canaima, pois a última aventura da viagem seria ainda mais incrível

O Povo da Venezuela

 

Eu senti o povo Venezuelano mais triste do que seus irmãos (a rivalidade entre os dois países é enorme) colombianos. Porém, conheci muitas pessoas bacanas.

Não sei se foi coincidência ou não, mas todas as pessoas com as quais conversei, inclusive uma funcionária pública, estavam fartas do governo de Chávez, e isso em 2011.

As reclamações eram sempre sobre violência e sobre o encarecimento da vida e a dificuldade de se ter acesso a bens, já que boa parte do que é consumido pelo país é importado.

Eu creio que as pessoas com as quais mantive contato eram da classe média venezuelana, o que me faz acreditar que realmente o grande apoio do governo Chávez naquela época ao menos  vinha das classes menos favorecidas e empobrecidas.

Hoje, 2020, nem imagino como possa estar o humor dos milhões e milhões de venezuelanos, já que a situação se deteriorou de maneira drástica.

 

O Incrível Trekking do Monte Roraima

 

De Canaima voltamos de avião para Ciudad Bolivar e lá eu precisava achar guias indígenas para fazer o trekking de seis dias ao topo do majestoso Monte Roraima.

Restavam-me apenas U$ 650,00 e eu não conseguia usar o meu cartão, em que pese a questão do câmbio oficial, pois o mesmo tinha sido bloqueado ao tentar usá-lo em Bogotá.

Eu precisava achar algum tour disponível para duas pessoas por essa quantia, o que não seria fácil.

Depois de muito procurar, acabei encontrando um guia cujas duas maiores alegrias eram beber e falar mal de Hugo Chávez. Acertei por U$ 620,00 dólares (com alimentação, Porter e barraca inclusa)  e na mesma noite rumamos para um dos grandes desafios físicos da minha vida até então.

O Trekking ao monte Roraima é feito em seis dias, mas acabamos fazendo em cinco.

A caminhada em si não é tão demandante, mas para quem nunca tinha dormindo tantos dias seguidos em barraca foi desafiador.

A equipe era formada por mim, minha mulher, o guia e um
carregador índio que era uma figura chamado Osmar. Ele falava uma mistura de português com espanhol com um sotaque muito engraçado.

É impressionante a força dos Índios que carregam os equipamentos. Eu fico imaginando os Sherpas no Nepal carregando dezenas de quilos nas costas a mais de 5.000 metros acima do nível do mar, mas isso é história para outro artigo.

No primeiro dia de caminhada, o guia e o carregador tomaram toda bebida e chegaram ao acampamento completamente bêbados. Desse dia lembro  de milhares de vaga-lumes que pareciam estrelas, foi algo muito diferente.

No segundo dia, sem bebida, os dois se mantiveram sóbrios e a caminhada foi um pouco mais pesada e longa. No entanto,
o local de acampamento era extraordinário, de uma beleza quase que poética.

O terceiro dia foi a escalada do monte propriamente dito. Não foi fácil, mas não foi tão difícil como eu imaginei, deve ter durado umas 6/7 horas.

Estar no topo do Monte Roraima parece que se está em outro mundo, em outro ecossistema.

Andamos ao leu no topo, tomamos banho em piscinas naturais, passamos por vales de cristais, numa experiência fantástica.

Dormirmos duas noites no topo do monte, numa sensação de estar apartado do mundo, das preocupações mundanas, do stress do dia a dia.

No quinto dia resolvemos voltar e fazer o percurso de dois dias em apenas um, pois queríamos chegar um dia mais cedo em Boa Vista e mudar a passagem do avião de volta para casa.

Não foi uma boa escolha. Andamos mais de 14 horas e levamos o nosso corpo a exaustão. Ao final, eu apenas queria me jogar no chão e dormir.

O nosso guia entrou em contato com um líder indígena local e ainda bem que não foi preciso dormir na barraca, pois vieram nos buscar de carro e nos levar até uma pequena cidade.

Imagine a cena de dois brasileiros exaustos no meio da noite numa caminhonete cheia de Índios ouvindo uma música chamada “A
Loira mais Gostosa da Gran Sabana” por quase 30 minutos(nem sei se era esse o nome, só lembrei o refrão que ficava repetindo essa frase!)

Pois  a cena foi e ainda é um pouco surreal para mim, mas pensando em retrospectiva não deixa de ser divertida.

Chegando a pequena cidade dormirmos em maravilhosas camas e
tomamos um maravilhoso banho.

Aliás, uma das coisas mais prazerosas depois de um trekking desse é dormir numa cama, tomar banho e comer uma comida gostosa. O prazer que se sente é imenso, o que para mim apenas deixa claro como não são necessárias grandes conquistas materiais para nos sentirmos satisfeitos com a vida.

 

Caminhada Monte Roraima Venezuela
É preciso caminhar….
Acampamento Monte Roraima
Isso sim é uma hospedagem cinco estrelas!
No cume do Monte Roraima Venezuela
Desbravando um mundo desconhecido no topo do magnífico Monte Roraima
Piscinas Naturais no Monte Roraima
Um banho de piscina natural no topo do mundo:) Nem estava tão gelado!
Guia Indígena
Nosso simpático guia, beber e falar mal do regime chavista eram os passatempos prediletos dele. A comida que ele preparava era simples, mas bem gostosa.

 

Na Volta ao Brasil e a Fronteira com a Venezuela

 

No final da viagem fomos num coletivo até Boa Vista (cidade brasileira que gostei bastante, apesar de ser absurdamente quente).

Na fronteira entre Brasil e Venezuela, um policial federal olhou com cara de brabo para mim e apenas perguntou “É Brasileiro?” , eu assenti que sim com a cabeça, e ele perguntou novamente a mesma coisa, eu respondendo “Sim!”.

Ele ficou me encarando mais uns segundos e permitiu que o carro prosseguisse. No banco da frente, apenas ouvi um “Graças a Dios” de um Peruano que estava sem os documentos, mas mesmo assim
conseguiu entrar no Brasil, graças a minha cara de gringo e a implicância do policial federal.

Infelizmente, essa mesma fronteira anos mais tarde em 2018-2019 iria ser a porta de entrada de milhares de venezuelanos fugindo da crise econômica e do regime opressor de Maduro.

Conflitos com a população local, cenas de xenofobismo por parte de brasileiros, infelizmente essa fronteira e local que eu tenho uma lembrança tão boa, teve cenas desoladoras nos últimos anos.

Ao chegar num bar local na beira da estrada, soube que o Santos tinha sido o único time a não ser eliminado na taça libertadores, o que
selaria o caminho do glorioso alvinegro praiano para a sua terceira conquista da taça libertadores, um título que sempre quis ver desde menino, mas isso também já é outra história.

Mosquito puri puri
Esse mosquitinho fez a minha perna inchar de uma maneira que nunca tinha ocorrido na minha vida

No último dia de Trekking, acho que tomei muitas picadas na minha perna de um mosquito chamado puri-puri , quando cheguei em Boa Vista a batata da minha perna estava absurdamente inchada, vermelha, dura e doendo.

Foram alguns dias passando pomada para a dor passar, uma lembrança que às vezes são os pequenos objetos e percalços que te derrubam.

 

Uma Palavra Final escrita em 2015

 

A situação atual da Venezuela me deixa triste, pois é um país que gostei tanto de conhecer e os venezuelanos possuem as suas similaridades com nós brasileiros.

Ao contrário do que alguns pensam, eu acredito que a chance da situação do Brasil se deteriorar econômica, social e politicamente para como está a Venezuela no curto/médio prazo é quase nenhuma.

Nosso país é muito mais diversificado economicamente. Nossas instituições são muito mais sólidas, nossa mídia muito mais forte, nosso exército muito mais independente,  o que torna quase impensável que um grupo político se aproprie por completo do Estado e da sociedade civil organizada.

A forma como o partido no poder há 12 anos vem apanhando de todos os lados, a espada de Dámocles pairando sobre o governo quando as delações de Roberto Costa e Youssef vierem a público com as denúncias e os nomes dos políticos e a guinada surpreende da Presidente Dilma Roussef no discurso econômico, apenas mostram que um regime similar ao chavismo não teria condições de florescer atualmente no Brasil.

Agora, todos aqueles que querem mudanças políticas nesse país, eu incluso, precisamos ter a sapiência de não fazer a bobagem que a oposição venezuelana fez em 2002, e devemos buscar a mudança pelos meios democráticos, não por impeachment ( a não ser que se comprove cabalmente envolvimento da Presidente no mega escândalo de corrupção da Petrobrás) ou pedindo, algo que para mim é absolutamente incompreensível, como a volta dos militares.

Os últimos cinco parágrafos foram escritos em 2015, não mudei absolutamente nada. Eu estava correto? Eu creio que sim.

Porém, hoje em dia creio que por incrível que pareça nosso país está muito pior, e muito mais parecido com a Venezuela de 2011.

Não, o Brasil não se transformará numa Venezuela, pois em tudo somos diferentes, e muito menos não numa Venezuela completamente arrasada como ocorre hoje em 2020.

Porém, precisamos nos manter atentos com as tentativas claras de esgarçamento das instituições democráticas de nosso país.

É isso colegas, espero que tenham gostado do relato e possam ter outra visão, ou ao menos outra perspectiva, sobre esse país fabuloso que é a Venezuela.

 

Bem-Vindos ao Mundo Soul!

Muito bem-vindos ao site Mundo Soul! Depois de anos protelando, finalmente tirei o projeto do papel e melhorei o visual e navegabilidade do meu espaço.

Encerra-se, depois de seis anos, o blog pensamentos financeiros, inicia-se o Mundo Soul! Estou bastante animado, especialmente para fazer podcasts.

Falando em podcasts, já está no ar o segundo podcast do Mundo Soul. Uma conversa com a Dra. Natalia Pasternak, microbiologista doutora pela USP, e grande divulgadora científica em nosso país. Confiram, e sigam, este novo episódio na sua plataforma preferida.

Estou em tratativas para entrevistar um físico para falarmos sobre as teorias mais mirabolantes da física moderna. Espero conseguir também entrevistar um dos nomes da primeira geração competitiva do surfe brasileiro que abriu caminho para o domínio dos surfistas brasileiros no esporte que vimos nos últimos anos. Enfim, boas entrevistas pela frente.

Irei aos poucos (re)publicar artigos que escrevi há vários anos, revisitando alguns temas, e talvez até refletindo sobre a minha  eventual mudança de pensamento sobre algum tema em específico. O site Mundo Soul está ainda vazio, mas aos poucos espero ter bastante material sobre diversos tópicos.

No mais, cadastrem-se, se quiserem é claro, para receber informações e novos artigos por e-mail.

Por enquanto é isso, um grande abraço!

Hello world!

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