A Difícil Arte de Escutar

A arte de Escutar

Quando eu era bem jovem, e falo criança mesmo em torno de 3-4 anos, o meu pai me disse que um dos grandes erros das pessoas era que elas falavam de mais e escutavam de menos. A elas não era ensinada a essencial arte de escutar.

Sim, ele falou a famosa frase

nós temos dois olhos para observar, dois ouvidos para escutar e apenas uma boca para falar.

Eu não sei por qual motivo, uma boa pergunta para um neurocientista, mas essa fala do meu pai ficou guardada em minha memória, apesar de na época eu ser apenas uma criança pequena.

Avance a fita da minha vida por 36 anos, e posso dizer que a arte de  escutar é uma das mais importantes que alguém pode dominar. Ela não é fácil, e demanda um grande autocontrole, uma capacidade de controle do ego e principalmente a habilidade para reconhecer a possibilidade de estar errado.

Não é algo trivial. Não é fácil para mim, e muitas vezes me mostro um aluno reticente nessa arte. Entretanto, a prática dessa arte de escutar é de vital importância para as mais variadas áreas da vida de uma pessoa.

Por qual motivo é importante saber a arte de escutar?

Comecemos pelo início. Por qual motivo é importante escutar aos outros?

Primeiramente, por uma questão de respeito.  É claro que pode haver exceções, mas geralmente as pessoas não gostam de serem simplesmente
ignoradas.Aliás, ignorar uma pessoa ode ser muito mais doloroso e ofensivo do que uma agressão verbal.

Lembro-me quando ainda era um jovem de vinte e poucos anos, ouvi uma médica especialista em operações cardíacas infantis dizer que uma das piores coisas que se podia fazer em relação a crianças de rua era simplesmente ignorá-las, isso causava um dano muito grande, e talvez até mesmo duradouro, na formação psicológica desses jovens.

Não é à toa que uma das melhores estratégias para evitar um conflito com alguém agressivo no trânsito, na fila do supermercado, é simplesmente ignorar a situação.

Essa é uma solução que o não escutar talvez seja positivo. Uma estratégia muito comum também, principalmente na seara dos argumentos, é simplesmente ignorar ou fingir que não existe.

Aliás, é algo muito como pela internet. Ao invés de escutar algum argumento, por exemplo, é muito mais conveniente para muitas pessoas apenas ignorá-lo por completo.

Na internet, é tão comum não escutar as pessoas, que essa conduta é quase a norma.

Felizmente, ainda não o é nos contatos físicos do dia a dia.  Experimente falar algo e ser completamente ignorado por uma pessoa, uma sensação de desrespeito enorme surge, ocasionando uma situação de conflito potencial.

É por isso que é muito mais fácil ignorar na internet, sem o contato olho no olho, do que pessoalmente. Aliás, sobre esse tema, sugiro o meu primeiro podcast com um professor universitário de biologia:

Tirando casos extremos de não escutar para a defesa da própria integridade física ou moral de si ou de outros, a verdade é que não escutar o que outra pessoa esteja falando é um sinal de desrespeito.

Muitas vezes as pessoas apenas querem ser ouvidas, apenas isso, e quando isso ocorre, como está ficando cada vez mais raro, as pessoas se sentem muito satisfeitas .

É Inteligente Escutar

Num outro grau mais “sofisticado”, escutar é uma atitude inteligente.  Por qual motivo? Já foi dito isso em diversas outras oportunidades nesse site, como nesse artigo

Cisne Negro: Como Raciocinamos Incorretamente

 

Um bom cientista testa a  hipótese “só existem cisnes brancos” não
procurando cisnes brancos, mas sim cisnes que não sejam brancos.

Isso para mim é tão lógico e intuitivo , que às vezes esqueço como é tão não-intuitivo para muitas pessoas.

A resposta muito é muito simples. Uma pessoa pode observar durante vários anos um milhão de cisnes brancos. Serão um milhão de observações distintas que parecem confirmar a hipótese “só existem cisnes brancos”.

Porém, basta apenas uma observação de um cisne negro para que a hipótese seja considerada falsa.

Logo, prezados leitores, procurar por dados da realidade que simplesmente reforcem nossas idéias preestabelecidas é tudo menos uma postura racional e científica.

Há até mesmo um viés cognitivo, em minha opinião, o maior deles, chamado viés de confirmação: a tendência humana de ignorar dados, ou dar pouca relevância, que sejam contrários a idéias próprias, mas dar muito valor a dados que confirmem essas mesmas idéias.

E como isso pode ser feito? Como o viés de confirmação pode se manifestar? Não escutando.

É muito mais fácil pensar num cenário onde as pessoas escutem informações que as favoreçam ou confirmem idéias preestabelecidas e ignorem pessoas que dizem o oposto.

Isso não é inteligente, nem mesmo prudente.

Quando Uma Advogada ignorou a arte de escutar e torrou R$ 150.000,00 de seu cliente

Uma vez numa operação de um imóvel adquirido por mim em leilão, eu  fiz contato com a advogada do devedor que ocupava o bem.

Ela não quis nem mesmo ouvir o que eu tinha a dizer, e na conversa rápida
que tive mostrou ter um conhecimento técnico muito pequeno sobre alienação fiduciária.

Ela deveria ter agradecido a minha ligação e a postura sensata e inteligente seria ao menos ouvir o que eu tinha a dizer.  Estava disposto a oferecer R$ 50.000,00 para por fim as demandas judiciais, bem como para ter acesso a posse imediata do imóvel.

Não fui ouvido. Não é que a proposta não foi aceita. Ela foi ríspida e deselegante e não quis nem ouvir o que eu tinha a dizer.

Dezoito meses depois, o cliente dela teve que me transferir R$ 80.000,00.

Ou seja, se contados custo de oportunidade financeiro (era tempo de SELIC de dois dígitos), a advogada não me ouvir, um ano antes custou ao cliente dela mais de R$ 150.000,00.

Se não é respeitoso, não é inteligente e não é prudente, por que motivo as pessoas querem escutar apenas a sua própria voz?

Por qual Motivo é tão Difícil Cultivar a arte de escutar?

Por vários motivos. Primeiramente, boa parte das pessoas não é criada ou educada para escutar.

Em segundo lugar, as pessoas têm orgulho intelectual muito grande.  Há um ditado iídiche que li num livro sobre a Cabala que diz que

as pessoas nunca estão contentes
com seus corpos, todas estão satisfeitas com seus cérebros

É uma citação brilhante.

Podemos emagrecer, engordar, fazer implante capilar, etc, etc, mas nossos cérebros, opiniões e julgamentos sobre o mundo não precisam mudar, e aí daqueles que de alguma maneira contestarem isso.

Em terceiro lugar, mas não esgotando todos os motivos, é confortável ouvir apenas a própria voz. É a nossa zona de conforto intelectual.

Ora, por qual motivo repensar minhas atitudes enquanto homem em relação a mulheres , por exemplo, é muito mais fácil, conveniente e confortável continuar tendo as mesmas condutas.

Saber escutar os outros pode ajudar um homem a conquistar romanticamente uma mulher bonita, pode ajudar a não fazer um cliente perder R$ 150.000,00,  pode fazer com que uma pessoa se sinta prestigiada, tem o potencial de nos abrir para novas perspectivas de vida, pode os fazer, em suma, pessoas melhores.

A arte de escutar deveria ser a arte política por excelência, e muitas pessoas
ignoram esse simples e lógico fato.

Num momento, mais um, de bagunça total e completa em nosso país, muitas pessoas tem opiniões do que está errado, e o que tem que ser feito para estar certo.

Todos nós podemos ter uma determinada opinião sobre algo, e não há nada de errado nisso. Mas eu me pergunto se boa parte dessas pessoas está disposta a escutar ou não. Isso possui conseqüências sérias.

Grupos que apoiam o aborto não deixarão de existir, nem grupos evangélicos, nem pessoas que acreditam que o Estado deve ser mínimo ou nem mesmo existir, nem militantes em prol da reforma agrária, nem apoiadores contra a reforma agrária, grupos que denunciam o racismo de negros, grupos que dizem que esse racismo não existe, grupos militantes pelos direitos
das mulheres ou feministas, grupos que dizem que os grupos feministas são
completamente equivocados, etc, etc.

Fazer de conta que isso não existe, não estar nem mesmo aberto a escutar o que diferente vozes e pessoas podem dizer, é o caminho mais fácil para uma vida individual e social pior.

Não vivemos mais em sociedades agrícolas homogêneas de centenas de pessoas, vivemos em aglomerados humanos de dezenas de milhões de pessoas com uma heterogeneidade enorme.

Escutar não significa concordar, não significa ser simpático a uma determinada ideia ou grupo de pessoas, não significa nem mesmo gostar de algo ou alguém.

Escutar é um sinal de respeito, inteligência e prudência, e em sociedades cada vez mais complexas e diversas, é essencial para a construção de uma vida minimamente equilibrada.

Um abraço a todos!