Mérito (Virtude) e Fortuna (Sorte). A relação inescapável

A Roleta da Vida

Olá, prezados leitores. Mérito e Sorte. Qual o papel de um e outro no rumo de um indivíduo, e talvez de comunidades inteiras? Somo apenas animais recompensados e guiados por nossos esforços pessoais ou somos indivíduos premiados ou não por eventos puramente aleatórios?

 

Negar ou Não o Mérito Eis a questão

 

Questionar ideias tão arraigadas em nosso imaginário individual e coletivo não é uma tarefa fácil, mas é essencial.  A possibilidade de termos uma visão crítica sobre a realidade que nos cerca é uma habilidade essencial, em minha opinião, para compreendermos diversos aspectos da vida de uma forma mais profunda.

É esta tentativa, muitas vezes frustada é claro, de questionar minhas próprias verdades um dos motivos de ter me levado e escrever textos públicos na internet.

Uma das opiniões que perpassa muito da nossa vida é quase que o culto da “religião do mérito“. Há quase que uma fé cega no conceito de mérito.

Talvez por questionar esse aspecto da realidade, e eu o faço em relação à minha própria vida, que para padrões exteriores seria tida como uma vida até agora de “sucesso”, os meus escritos possam ter sido mal compreendido por alguns.

A nossa vida é o resultado de uma combinação de esforço (o que muitos entendem como mérito) e acaso. Negar a concepção de mérito como único definidor dos nossos destinos não representa a negação do esforço individual. Como assim?

 

Mérito e Acaso e Um Quarto de Século a Mais (ou a Menos)

 

No artigo

Herança Social. O que devemos a nossos antepassados?

perguntei qual é o mérito de um Dinamarquês ter nascido na Dinamarca. A pergunta parece absurda, porque ela é absurda. Ninguém pode ter qualquer mérito, entendido como  esforço individual,  por ter nascido num país em específico.

Qual é o demérito de um Somali ter nascido na Somália? A pergunta também é absurda.

Um Dinamarquês homem tem uma expectativa de vida ao nascer de 79 anos, um Somali de s de apenas 55 anos. São 24 anos de diferença. Um ser humano viverá em média 24 anos a mais do que outro ser humano apenas por ter nascido numa outra região do globo.

Para se ter ideia, você pode ter a melhor dieta do mundo, exercitar-se de maneira apropriada, dormir bem, ter bons genes, que você provavelmente não irá viver mais de 15 anos em relação a média da população, o que dirá 25 anos.

Eu não estou interessado aqui em saber porque um Dinamarquês vive mais, sobre o sistema econômico, político e social deste país.

O ponto simples é que se alguém tiver o acaso (azar) de nascer na Somália irá viver muito menos do que um  Dinamarquês. Já imaginariam viver 24 anos a menos em média? Um quarto de século retirado de sua expectativa de vida? Uau, isso é algo terrível e significativo.

Um Dinamarquês médio será muito mais educado, rico, saudável e feliz do que um Somali médio .

Se tirássemos um Dinamarquês e um Somali médios dos seus respectivos contextos e colocássemos um do lado do outro, é inegável, se fôssemos seguir o que acreditamos ser sucesso na sociedade atual, que apontaríamos com facilidade um vencedor e um perdedor.

E onde está o mérito nisso tudo? Ele não está, pois o destino desses dois indivíduos, em média, terá sido selado apenas por causa do lugar onde eles nasceram. Não importa se foram bons ou maus maridos, bons ou maus seres humanos, se trabalharam duro ou não. Em média um Somali viverá muito menos do que um Dinamarquês.

Esta é uma observação tão evidente de como o mundo se apresenta, que me causa uma surpresa imensa como muitos são reticentes a este fato.

E por que isso? Pela crença que o mérito, entendido como esforço individual, é a única coisa que importa, é aquela característica que poderá mover montanhas e levar qualquer ser humano a qualquer lugar.

Isso não se sustenta na lógica, nem nos fatos. Existe um grande livro chamado de “Outliers” e é fantástico.

Mérito e Acaso
O fantástico Livro Outliers

O livro trata sobre esse tema de acaso e mérito e suas improváveis conexões.

Entretanto, há tantos outros como  por exemplo “O Andar do Bêbado”. Esse é um tema recorrente na tragédia grega, em filósofos, grandes escritores e pensadores. Ou seja, não há nada de novo, humanos refletem sobre isso há milhares de anos.

Entretanto, não há esforço individual? Onde entra o papel do indivíduo nisso tudo?

Este livro é muito bom mesmo. Li em algumas horas (quando passei 20 horas dentro de um ônibus preso numa tempestade de areia num deserto da China) e recomendo bastante.

 

Mérito (Virtude) e Fortuna (Acaso)

 

O pensador italiano Maquiavel tinha o conceito de Fortuna e Virtude.  Fortuna, termo derivado da Deusa Romana da Sorte, é o nascer na Dinamarca ou Somália. É o acaso, o imponderável, aquilo que não temos qualquer controle.

O Acaso da Fortuna
A Deusa Fortuna distribuindo dons, problemas, ao acaso para nós humanos

É o nascer com um QI de 180 ou 80. Nascer uma pessoa fisicamente linda ou com alguma deformidade. É ser atropelado por um carro onde o motorista se distraiu, é o ganhar na loteria, é o ter nascido negro no Brasil em 1750 como escravo ou em 1995 como homem livre.

Creio que não preciso prosseguir. Não há mérito aqui, não há esforço individual, há apenas sorte ou azar, ou seja acaso.

Entretanto, um ser humano não é apenas afetado por sua fortuna, ele pode ser virtuoso ou não. V

Virtude para Maquiavel seria o esforço individual, seria o que entendemos modernamente como Mérito.

Logo, um Somali pode se esforçar para ter uma vida melhor. Uma pessoa que nasceu numa favela indiana pode se esforçar e chegar em algum lugar de destaque na sociedade. Um Americano nascido numa família rica pode não ser virtuoso e acabar na miséria.

O esforço individual importa.  Eu, Thiago poderia ter me esforçado mais e aprendido um pouco mais de Chinês, e aproveitado mais os meus quatro mês que viajei pelos mais variados rincões desse impressionante país.

Poderia ter me esforçado mais e hoje ser mestre de alguma arte marcial. Ora, aprender mais Chinês ou ser mestre em uma arte marcial é algo que está ao meu alcance, depende do meu esforço, do meu mérito próprio.

Posso dar milhões de exemplos, e creio que você leitor terá os seus inúmeros exemplos.

 

Apenas o Mérito Não Explica o “Sucesso”. O Acaso sempre está presente

 

Entretanto, há limites para o esforço individual. Não importa quão esforçado um negro fosse, ele nunca seria dono de uma fazenda na Venezuela em 1783.

Não importa quão esforçado seja o povo somali, eles, no curso de uma geração, não viverão tanto como os Dinamarqueses em média.

Não importa quão inteligente e esforçado seja Bill Gates (e ele é muito dos dois), se ele tivesse nascido em 1920, ele muito provavelmente não seria um gênio da informática, e teria uma grande possibilidade de ter morrido na segunda guerra mundial.

Bill Gates: Mérito, acaso ou ambos?
Por mais brilhante que Bill Gates possa ser, apenas o seu esforço não explica a sua trajetória

O próprio Bill Gates diz como ele foi sortudo de ter nascido na época certa. O livro “Outliers” trata de maneira espetacular a história dele e de outros ícones do tempo moderno, e desmonta a ideia de que apenas o esforço individual explica o sucesso.

O esforço individual é fundamental, todos podem se esforçar, quase nunca ele é suficiente, especialmente para explicar sucessos retumbantes.

Reconhecer o papel do acaso, da aleatoriedade, não é diminuir o ser humano. É apenas reconhecer como as coisas são.

Aliás, no meu caso ao perceber quão evidente era essa a realidade, o efeito foi me fazer mais humilde, aceitar mais os outros e reconhecer que só estou onde estou por causa de inúmeros acontecimentos aleatórios, sorte e também do meu esforço individual.

Isso é um alívio. Nos torna menos propensos a julgamentos peremptórios sobre outros seres humanos e a vida fica tão mais leve.

 

Você sempre pode se esforçar

 

Agora, colega, não importa onde você esteja e em qual situação, você sempre poderá se esforçar.

Aliás, se você está lendo esse artigo, é muito provável que você seja um privilegiado pelo  mero acaso.

Não nasceu num campo refugiados no Sudão, não é trabalhador escravo em alguma mina em Uganda, não perdeu uma perna e um braço numa mina enterrada no Camboja, ou seja, nasceu num país com inúmeros problemas, mas muito melhor do que boa parte do países atuais no mundo.

A Fortuna (acaso) já está do seu lado.  Sendo assim, está sem dinheiro? Esforce-se mais no seu trabalho. Esforce-se mais estudando. Esforce-se mais em suas atividades diárias. Depende apenas de você.

Você tem uma empresa? Esforce-se para atender melhor os seus clientes, ser gentil já é uma enorme diferença no Brasil.

É um estudante universitário?  Esforce-se para tirar o melhor proveito da universidade, leia mais, pergunte mais aos professores, não perca tanto tempo bebendo cerveja com amigos, principalmente em horário de aula.

É empregado de uma empresa? Faça o seu trabalho de forma correta. Faça mais do que é pedido e não reclame tanto. Instrua-se mais se quiser outra posição. Etc, etc.

Mérito e Acaso. Fortuna e Virtude. Elas sempre te acompanharão na vida. Uma você não terá qualquer controle a outra depende de você.

Você pode inclusive usar sua virtude em relação aos acontecimentos fortuitos de sua vida (aliás, era isso que Maquiavel dizia que fazia um grande governante).

Alguém bateu no seu carro? Um ato fortuito. Você irá atrás do motorista infrator como um louco alucinado e irá chamá-lo para a briga ou você terá uma outra atitude ? Isso é virtude.

Alguém te ofende (algo sobre o qual você não tem controle), você ficará com raiva ou não? Isso é virtude e depende única e exclusivamente de você.

 

Um Exemplo Banal de Fortuna e Virtude

 

Quando estava na Coréia do Sul, e minha mulher fomos a um templo à beira mar na cidade de Busan (sul da Coréia, cidade lindíssima aliás).

Enquanto estávamos esperando o ônibus, ouvi “brasileiro” sendo falado por duas garotas. Iria começar uma conversa, já que fazia meses que não encontrava nenhum brasileiro, mas nosso ônibus chegou e acabei não iniciando uma conversação.

No outro dia, numa estação de metrô fomos parar atrás de quem na fila? Das duas brasileiras (isso foi um grande acaso, já que Busan tem mais de 3 milhões de habitantes).

Resolvi que já era muita fortuna,  comecei a utilizar a minha virtude e iniciei um conversa. O papo durou alguns minutos, pois descemos antes numa outra estação de metrô.

No outro dia, não é brincadeira, as encontramos de novo na estação de trem, e elas estavam indo para a mesma cidade histórica. Fizemos amizade e elas se mostraram mulheres muito bacanas.

Uma falava coreano, pois os pais nasceram na Coréia e emigraram para o Brasil há 40 anos. Por causa da habilidade dela na língua, pudemos experimentar um típico almoço tradicional coreano.

Uma das melhores experiências na Coréia que tivemos . A comida estava deliciosa, nunca vi vegetais tão bonitos e apresentação dos pratos foi e é sensacional.

Cabe a cada um de nós transformar acontecimentos fortuitos, e há tantos deles, por meio da nossa virtude (esforço individual) em algo  mais significativo para nossas vidas.

Ah, e uma das garotas, iria acabar nos encontrando na Mongólia meses depois, e partindo conosco, mais um motorista de um jipe miliar temperamental, para uma viagem de 21 dias pelos lugares mais remotos do planeta nos rincões do país mais bonito do mundo.

 

Quando a Virtude alcança a Fortuna num grande banquete
Que banquete! Que experiência! Obrigado Fortuna (e obrigado meninas!)