A Finalidade do Dinheiro. Existe mais de uma?

Dinheiro

  Qual a finalidade do dinheiro? O dinheiro tem alguma  outra finalidade para além de comprar coisas, de nos transformar em consumidores?

   Eu acredito que sim, e essa função comumente associada ao dinheiro para mim é a mais elementar entre as finalidades do “vil metal”.

   O meu pai constantemente falava para mim, mesmo quando eu era uma criança/adolescente, que o dinheiro possuía três finalidades, e é sobre elas que esse texto trata.

PRIMEIRA FINALIDADE DO DINHEIRO -SOBREVIVÊNCIA

 

Essa é a relação principal, e quase sempre única,  que a esmagadora maioria da humanidade  possui com o dinheiro: a necessidade de possuí-lo para sobreviver.

Sobrevivência aqui pode ser entendida num contexto mais amplo, não necessariamente apenas ligada às necessidades fisiológicas do nosso corpo.

Logo, as pessoas precisam de dinheiro para  ter um teto sobre às cabeças, para poder ter, em muitos casos, acesso a uma boa educação, à saúde, a bens de consumo que tornam a nossa vida mais confortável, etc.

Quase metade da população humana, em 2015, vivia abaixo da linha da pobreza, e aproximadamente 10% de todos os seres humanos vivem abaixo da linha de extrema pobreza, conforme conforme esse estudo do Banco Mundial.

Em minha sincera opinião, independente de qualquer ideologia ou formulação econômica, creio que esse fato deveria estar na primeira página de todos os jornais do mundo, e não sair de lá até que esses números caíssem absurdamente.

Infelizmente, dezenas de milhares de crianças morrem diariamente por ausência ou insuficiência de acesso a tratamentos mínimo de saúde, de saneamento e muitas vezes simplesmente por fome.

Isso significa milhões de crianças por ano. Esse é um dado que deveria ser passado antes de todos os programas de televisão, e apenas terminar quando diminuíssemos drasticamente esses números absurdos.

É verdade, um leitor atento poderia notar, que esses números eram ainda piores há 20/30 anos, e ele estaria correto.

A ascensão de uma classe média na China, e em tantos outros países, fez com que centenas de milhões de pessoas saíssem da extrema pobreza.

Porém, até pelos avanços tecnológicos incríveis da humanidade no mesmo período, muito mais precisa ser feito. Eu creio que nós, entendido como espécie humana,  não discutimos as misérias de nossos irmãos e as grandes injustiças desse planeta da maneira de vida. Esses tópicos não estão na pauta dos nossos líderes mais poderosos, e das sociedades humanas mais desenvolvidas, infelizmente.

Contudo, esse é um papo para outro artigo.  O que quis destacar com esses tristes dados sobre nossa família humana, é que para a esmagadora maioria dos homens a finalidade dinheiro principal do dinheiro está ligada a uma questão de vida ou morte, de sobrevivência física do corpo.

Se considerarmos uma definição mais ampla para sobrevivência, eu não tenho dúvidas de que mais de 99% da humanidade possui uma relação estritamente de sobrevivência com o dinheiro, senda essa a sua única finalidade.

Por isso, aqui apenas divago sem ter a certeza se estou correto, talvez a esmagadora maioria das pessoas acredite que a única finalidade do dinheiro esteja no consumo, e em casos mais extremos, que estão na fronteira de alguma desordem psíquica, no consumo desenfreado.

Colegas, é claro que essa é uma parcela fundamental da finalidade do dinheiro nas sociedades modernas: permitir a nossa sobrevivência e acesso a bens mínimos de consumo.

Não há qualquer mal nisso. Entretanto, o dinheiro pode servir para outras duas finalidades extremamente importantes para o espírito e ética humana.

Quando a acumulação de riqueza já não for mais de alta importância social, haverá grandes mudanças no código moral. Estaremos em condições de nos desfazer de muitos falsos princípios morais que nos acorrentam por duzentos anos, e pelos quais temos exaltado alguns dos mais repugnantes atributos humanos como se fossem as maiores virtudes. O amor ao dinheiro como posse- algo distinto do amor ao dinheiro como meio para os prazeres e exigências da vida – será reconhecido pelo que é, uma morbidez bastante repulsiva, uma dessas propensões semi-criminosas e semi-patológicas que se conduzem com um arrepio para os especialistas em doenças mentais” John Maynard Keynes (1930)

 

SEGUNDA FINALIDADE DO DINHEIRO –  A BUSCA DESINTERESSADA DO CONHECIMENTO

Você, prezado leitor, pode estar pensando que quem faz faculdade, MBA, etc, não está em busca de conhecimento? Sim, mas essa busca não costuma ser desinteressada, ela costuma ter como foco principal, e muitas vezes único, a obtenção de dinheiro para sobreviver, ou para atender algum desejo de consumo.

Mas, por qual motivo a busca do conhecimento deve ser desinteressada? E o que isso tem relação com a finalidade do dinheiro? Aqui a resposta será muito pessoal, e pode haver pessoas que simplesmente não concordam.

Entretanto, creio que apenas a busca desinteressada pelo conhecimento pode nos permitir alcançar verdades mais profundas, bem como nos proporcionar prazeres que muitas vezes são muito superiores aos prazeres sensoriais.

Como assim? Comecemos pelo deleite intelectual.

Minha mãe sempre me falava:

“Filho, não há nada melhor do que um prato de comida quando estamos com fome, uma cama arrumada quando estamos cansados, e uma privada limpinha quando queremos fazer o número 2.” (Sonia, data incerta)

É difícil discordar.

Quem já fez alguma trilha extenuante, como eu já fiz algumas, e depois de alguns dias comendo mal e dormindo de forma desconfortável, chegar num lugar com um prato de comida, uma cama com lençol, e uma privada limpa, sabe que a sensação de prazer é imensa, maior  às vezes até do que o prazer proporcionado pela compra de um carro novo , o que apenas reforça  a ideia de como a satisfação está nas pequenas coisas da vida.

E o prazer sexual ? A toda evidência é sensacional e essencial para termos uma vida saudável.

É tão importante que os indianos há milhares de anos atrás desenvolveram técnicas de como aumentar o prazer sexual (sim, é o Kama Sutra).

Não há dúvidas que os prazeres sensoriais são bons!

Porém, há prazeres que apenas o nosso intelecto pode sentir, e eles costumam ser muito mais fortes e impactantes do que os prazeres sensoriais.

Alguém aqui pode conseguir imaginar o prazer que deve ter invadido o cérebro do Einstein quando ele teve os vários insight fundamentais para as suas diversas brilhantes teorias? Eu não consigo nem imaginar o que ele pode ter sentido.

Einstein
O grande homem e cientista Albert Einstein

Não precisamos ser geniais como Einstein para sentir o prazer intelectual. No primeiro capítulo do livro “Elogio ao Ócio” do filósofo e matemático Bertrand Russel, o autor descreve uma cena bucólica de alguém comendo um abricó.

Ao explicitar as características biológicas da fruta, a etimologia da palavra, e como esse conhecimento “sem utilidade prática” na verdade fazia com que a experiência de comer um abricó fosse muito mais intensa.

Quantos filmes, para dar um exemplo mais trivial, que percebo que a ausência de conhecimento torna a experiência frustrante, e a presença de conhecimento torna a experiência extremamente prazerosa.

Elogio ao Ócio
O belo livro do grande matemático e filósofo Bertrand Russel

Um exemplo é o filme “Árvore da Vida” que para mim é simplesmente brilhante, pois eu vejo inúmeras referências científicas muito interessantes, especialmente às ligadas sobre o início e o fim do planeta terra.

A experiência de assistir ao filme fica bem mais agradável se a pessoa entende alguns conceitos de cosmologia e astronomia. Entretanto, percebo que para muitos que  talvez não tenham esse conhecimento básico,  o filme perde muito sentido, e essa foi uma opinião frequente quando a obra foi lançada.

Logo, se um ser humano consegue ter o privilégio de ter dinheiro para a sua sobrevivência, ele pode se aventurar na busca do conhecimento por verdades mais fundamentais.

Ou, simplesmente, saborear as experiências na realidade com mais “cor”, o que com certeza, pelo menos para mim, traz um prazer enorme.

A busca pelo conhecimento, de forma desinteressada, é em minha opinião a segunda finalidade do dinheiro. Esse aliás, foi um dos grandes motores da minha busca pela Independência Financeira.

A MAS NOBRE FINALIDADE – AJUDA AO PRÓXIMO

Por fim, chegamos à terceira finalidade do dinheiro.  A cabala,  grosso modo a parte mística do judaísmo, tem um conceito que acho lindíssimo: o conceito de Tsedaká.

A sabedoria dos místicos e estudiosos judeus pode ensinar algo sobre a finalidade do dinheiro
A sabedoria dos místicos e estudiosos judeus pode ensinar algo sobre a finalidade do dinheiro

 

O que isso quer dizer? Aviso desde já que meus conhecimentos sobre o misticismo judaico são mínimos, apesar de já ter lido há uns 13 anos atrás os excepcionais livros do rabino Nilton Bonder?

Tsedaká é a possibilidade de fazermos transações justas com  os outros, e por via de consequência com o universo.  Quando situações onde possamos exercer a Tsedaká aparecem, os sábios costuma dizer que são verdadeiras bênçãos em nossas vidas.

É difícil definir esse termo, mas vou tentar resumi-lo com uma história minha quando eu tinha 16 anos e estava andando em direção ao dentista na minha cidade natal.

Eu estava querendo ler o livro “O mundo de Sofia”, mas achava que o preço estava caro demais. Como não tinha encontrado o livro em nenhum sebo (sim eu gostava de sebos desde essa idade), eu estava decidido a comprar na livraria mesmo.

Quando estava quase chegando ao dentista, reparei que havia uma pequena janela numa casa com alguns livros colocados a venda. E não é que o “Mundo de Sofia” estava lá?

Eu percebi que tinha uma placa dizendo que os livros iam ser vendidos para ajudar um lar de idosos.

Perguntei quanto custava o livro. Uma Senhora me respondeu que por dois reais eu podia comprar. Nem acreditei na minha sorte. Mesmo em 1996, esse valor era muito baixo.

Quando eu já tinha pagado e estava quase na esquina da rua, eu não
sei, alguma coisa me disse para voltar. Eu voltei, e dei mais dez reais pelo livro (o que ainda faria que a aquisição fosse razoavelmente mais barata do que o livro na livraria).

A senhora ficou tão feliz pelo meu ato gratuito de ser mais generoso, eu fiquei tão feliz com o que tinha feito, e provavelmente o universo ficou tão contente com a minha atitude, que anos mais tarde eu aprendi que tinha realizado uma Tsedaká. Eu tinha feito uma transação justa.

O livro, a finalidade maior do dinheiro e a bênção
O livro, a finalidade maior do dinheiro e a bênção

O exemplo é pequeno (e tenho certeza que os leitores tem histórias semelhantes, ou até mesmo de situações mais profundas), mas ele mostra a força desse conceito.

Quando realizamos atos justos, de compaixão e caridade para quem necessita, os verdadeiros abençoados somos nós.  O prazer que sentimos ao poder ajudar os outros é às vezes muito maior do que a própria ajuda.

Logo, o dinheiro pode nos dar a oportunidade de realizarmos inúmeras transações justas, com uma enorme sensação de sentido e satisfação pessoal. Essa talvez seja a finalidade do dinheiro mais nobre.

Colegas, os biólogos evolucionistas há muito sabem que a esmagadora maioria das  espécies evoluiu e sobreviveu baseado na competição, mas também na cooperação e solidariedade.  A espécie humana não é diferente.

Nós somos essa mistura de competição e individualismo com solidariedade e cooperação.

Qualquer doutrina ideológica que tente atrofiar alguma dessas duas facetas (e creio que hoje estamos com prevalência forte do individualismo), apenas fará que o ser humano seja incompleto e infeliz.

Logo, em minha opinião, e falando aqui na seara econômica, qualquer teoria que tente colocar em segundo plano a solidariedade, compaixão, está fadada a trazer menos satisfação para os humanos.

Não é o que vemos na nossa sociedade atual? Pessoas cada vezes mais
insatisfeitas e depressivas, mesmo com consumos cada vez maiores.

Por outro lado, qualquer teoria  que tente colocar em segundo plano a
individualidade do ser humano, está fadada ao fracasso , como inúmeros exemplos históricos demonstram.

Portanto, a verdade como disse Buda geralmente está “no sagrado caminho do meio”.

Quando temos a nossa sobrevivência, pelo menos do ponto de vista fisiológico, assegurada(e há pessoas maravilhosas que mesmo em situação de penúria ainda assim ajudam a outros humanos que possam estar em situação ainda mais desesperadora), o dinheiro pode servir para ajudar outras pessoas, para mitigar tanto sofrimento humano.

Não tem tempo ou energia? Essa organização te ajuda a atingir uma nobre finalidade do dinheiro
Não tem tempo ou energia? Essa organização te ajuda a atingir uma nobre finalidade do dinheiro

É isso aí, colegas, as finalidades do dinheiro não são atingidas passo a passo, apesar de que quando as necessidades mínimas de um ser humano não são atendidas, fica difícil falar em busca de conhecimento desinteressado, afinal “ninguém filosofa de barriga vazia”).

Elas podem ser alcançadas simultaneamente, o único passo necessário é abrirmos nossos olhos.

Trailer filme “Árvore da Vida”. Alguns acham incompreensível, outros não gostam, eu acho um filme simplesmente fabuloso, nunca tinha visto nada parecido no cinema.

Grande abraço a todos!

obs: esse texto foi escrito originalmente em junho de 2014, foram feitas modificações. Os comentários publicados em 2014 com respostas minhas em 2020 representam as minhas respostas naquela época, não houve qualquer mudança no conteúdo ou grafia.